segunda-feira, 17 de agosto de 2009

População brasileira não valoriza saneamento.

Por Celso Dobes Bacarji, da Envolverde



Os dados da pesquisa “Percepções sobre Saneamento Básico”, do Instituto Trata Brasil revelam não apenas um lado triste da realidade do saneamento básico no país, que é a sua péssima qualidade para a grande maioria dos brasileiros, mas também um lado triste da educação e da própria comunicação. Quase um terço (31%) de nossa população desconhece o que é saneamento básico.

A pesquisa informa ainda que 28% desconhecem o destino dos esgotos e 17% sequer conseguiram opinar sobre o tratamento de esgoto. A pesquisa conclui então o óbvio: "o saneamento básico não é considerado uma prioridade para a população".

Raul Pinho, presidente executivo do Trata Brasil lamenta: “Saneamento básico é uma agenda atrasadíssima no Brasil. É preciso sensibilizar toda população para gerar um movimento de conscientização e de demanda. Cabe a nós, cidadãos, cobrar as intervenções dos nossos gestores”.

Vivemos pelas coisas urgentes, que mais nos ameaçam, de acordo com as respostas dos brasileiros às questão apresentadas pelo Instituto. A doença (49%) e a segurança (45%), ameaças sempre iminentes, são as maiores preocupações dos entrevistados, seguidas pelas drogas (40%), educação (28%), emprego (27%), calçamento e pavimentação (11%) e limpeza pública (11%). Esgoto ocupou o 7° lugar no ranking.

Entre as conclusões a que chegaram os idealizadores da pesquisa destacam-se a de que não há uma cobrança da população por melhorias nessa área e que, na hora de escolher um candidato a prefeito, esse serviço público não é considerado. De acordo com o levantamento, apenas 2% dos entrevistados consideraram as condições de esgoto quando escolheu seu candidato nas últimas municipais.

Porque o brasileiro atribui tão pouco valor ao saneamento básico, afinal? É evidente que 100% da população brasileira gostaria de ter água límpida e saudável jorrando em suas torneiras. Quem é o brasileiro que não gostaria, ou não gosta, de ter um banheiro limpo e perfumado em sua casa, sem se preocupar para onde vão dos seus resíduos sólidos e líquidos? Ou seja, o brasileiro sabe o que é saneamento básico.

O presidente executivo do Trata Brasil, Raul Pinho, acha que é uma questão de educação e sugere parcerias entre governos e escolas para uma educação mais efetiva que desenvolva o senso crítico e incorpore a questão do saneamento no currículo. Para ele, uma questão também de educação dos políticos, "que precisam entender que a universalização dos serviços de saneamento pode se refletir numa economia de verbas públicas, principalmente na área de saúde".

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Sergipe perde dinheiro por não reaproveitar o lixo .


Texto: Antonio Carlos Garcia / Foto: Jorge Henrique

Enterrar lixo é o mesmo que enterrar dinheiro. O alerta é do diretor-executivo da Fundação Interuniversitária de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho, Francisco Mazzeu, que ontem pela manhã, se reuniu com representantes de diversas instituições, na Sociedade Semear, para discutir a organização dos catadores de lixo da capital. Ele fez essa constatação para mostrar que a situação de Aracaju não é a diferente do restante do país, que não vê lixo como fonte de renda. Por conta disso, os empresários são obrigados a importar lixo da Europa e Estados Unidos, porque no Brasil não se dá a destinação correta.

É para, no futuro, transformar lixo em dinheiro que Francisco Mazzeu vem fazendo uma série de discussões em Aracaju, num projeto que deve estar consolidado em quatro anos. A intenção é organizar os catadores de lixo em associações e fazer um trabalho educativo com a população para orientá-la sobre a destinação correta do lixo. Hoje a Care, com sede no bairro Santa Maria, tem apenas 45 catadores cadastrados. Mas o número de pessoas que sobrevive do lixo é significativo.

Uma pesquisa realizada, em 2006, pela Universidade Federal de Sergipe (UFS) identificou 500 pessoas que residem em vários bairros da capital. Mas para a coordenadora do núcleo local da Rede Unitrabalho, Conceição Almeida, esse número pode ser bem maior. Embora se associar a uma entidade seja opcional, Conceição e Francisco Mazzeu explicam que a intenção é sugerir às pessoas que estejam organizadas em cooperativa – como a Care, por exemplo – para melhor trabalhar.

Discussões

Os debates em torno da destinação do lixo produzido em Aracaju são antigos. Há 10 anos, o Ministério Público Estadual iniciou as discussões sobre assunto, a partir da denúncia, devidamente constatada, que crianças estavam trabalhando no lixão. Depois, discutiu-se a formação de associação e também qual seria a destinação desses resíduos. Mesmo com tanto tempo – uma década – o professor Mazzeu observa que os quatro anos previstos para implementação do projeto em Aracaju não é longo, pois as coisas não mudam rapidamente.

Conceição Almeida também tem a mesma opinião e ressalta que é uma questão cultural.
O fato é que Aracaju – assim como todo Brasil – vem perdendo dinheiro porque enterra o lixo ao invés de reaproveitá-lo e por isso o importa. São Paulo, por exemplo, que produz 18 mil toneladas de lixo por dia, só recicla 2%. O Brasil importa 70 toneladas mês de lixo, enquanto que o produzido aqui é enterrado.


Jornal de Sergipe.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Coleta de lixo cresce, mas destino dos resíduos ainda é problema

Por Elaine Patrícia Cruz, da Agência Brasil


Apesar do crescimento em 2008 da coleta dos resíduos sólidos urbanos (RSU) no Brasil, quase a metade do lixo diário ainda tem destino inadequado, revela o estudo Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, divulgado hoje (10) pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe).

De acordo com o documento, apenas 55% das 149,1 mil toneladas de resíduos sólidos urbanos recolhidas diariamente tiveram destinação adequada no ano passado. O restante, ou foi para os lixões ou para os aterros não licenciados. O estudo mostra ainda um crescimento de 5,9% em relação a 2007 na quantidade de lixo urbano recolhido no país, em 2008.

“Neste mercado de meio ambiente, o que chamamos de destino correto são as centrais de tratamento de resíduos, conhecidos como aterros sanitários licenciados, que são preparados para receber os resíduos, sem contaminar o meio ambiente e o lençol freático”, disse João Carlos David, presidente da Abrelpe, em entrevista à Agência Brasil.

O destino do lixo hospitalar é mais um grave problema citado pelo documento da Abrelpe. Das 210 mil toneladas coletadas no ano passado, cerca de 80% não tiveram tratamento adequado, segundo Carlos David. “A gente só tratou adequadamente 23%, ou seja, o resíduo hospitalar, além de ser um problema para o meio ambiente, também é um problema de saúde pública porque ele acaba sendo transmissor de várias doenças”, afirmou.

O tratamento correto para os resíduos hospitalares, segundo explicou o presidente da Abrelpe, é realizado por meio de três diferentes tecnologias: a desativação eletrotérmica, micro-ondas e autoclave. Em alguns casos, pode também ocorrer a incineração antes deles serem levados levados para os aterros sanitários.

Para Carlos David, a responsabilidade sobre a destinação do lixo no país não ser apenas do poder público. Ela deve envolver também a sociedade. “A população consegue contribuir fazendo a sua parte, consumindo adequadamente e com consciência, sabendo separar os resíduos, não misturando os resíduos orgânicos, ou seja, não misturando a sobra de alimentos com resíduos potencialmente recicláveis como plásticos, vidros, papéis e latas”, disse.

O estudo revela ainda o crescimento da coleta seletiva. Ela já é feita em 56% dos 5.565 municípios brasileiros, e o da reciclagem de latas de alumínio, onde o Brasil aparece na liderança mundial, com 96,5% do total de latas comercializadas no país, em 2007, oriundas da reciclagem.


(Envolverde/ )

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Cidades não monitoram qualidade da água



Por Dayanne Souza, do Pnud


Responsáveis pelo abastecimento em metade dos 1.296 municípios pesquisados alegam falta de recursos para fazer testes recomendados.

Controlar a qualidade da água que chega às casas é obrigação legal das empresas de abastecimento, mas muitas assumem que não conseguem cumprir normas federais. Uma pesquisa feita em 1.907 municípios apontou uma série de dificuldades para cumprir a lei. Das 1.296 cidades que responderam a uma pergunta do questionário sobre o cumprimento das normas, em mais da metade (657) as empresas responsáveis pelo serviço de água afirmam que têm grande dificuldade para realizar as análises determinadas pelo Ministério da Saúde.

O estudo foi realizado pelo PMSS (Programa de Modernização do Setor Saneamento), que tem apoio do PNUD e é executado pelo Ministério das Cidades. Desde março do ano passado, o programa aplicou questionários às secretarias municipais de saúde e às concessionárias. Não houve uma fiscalização para saber quantas empresas controlam a qualidade da água como pede a norma, mas elas mesmas assumiram que é difícil atender as exigências.

As companhias argumentam que faltam equipamentos de laboratório e recursos financeiros. Em 40% dos casos, não há laboratórios dentro da cidade, o que obriga a enviar amostras a municípios vizinhos. Além disso, grande parte aponta como um empecilho grave o número reduzido de funcionários (39%) e a falta de pessoal qualificado (26%).

“Não é possível justificar essa falha com o custo”, afirma Jucélia Mendonça, engenheira do Ministério das Cidades e uma das autoras do estudo. “Precisa conscientização do gestor, falta priorizar a área”, critica. Ela diz que já é um consenso que há carências no controle da qualidade da água distribuída no Brasil. O monitoramento, destaca, evita a disseminação de doenças por meio da água, já que diarreias e problemas intestinais costumam derivar do consumo de água contaminada por microorganismos.

A portaria 518 do Ministério da Saúde, aprovada em 2004, exige análises da cor da água, turbidez (análise de quanto a água está turva) e de presença de coliformes (bactérias). São testes simples e que não exigem muitos recursos, diz Jucélia. Não ter um laboratório no município pode prejudicar a integridade da análise ou mesmo o cumprimento dos prazos, diz ela, que ressalta que apenas com o estudo feito não é possível dizer se isso ocorre. Apesar de considerado simples, o teste da presença de coliformes foi feito fora da cidade em 63% dos casos, e o de turbidez, em 44%.

Cabe às secretarias municipais de saúde cobrar o cumprimento dessas normas pelas empresas de abastecimento, refazendo análises e exigindo relatórios. Porém, o estudo do PMSS com 803 dessas secretarias indica que menos de um quinto das cidades com até 20 mil habitantes têm profissionais que trabalham exclusivamente na área. Nos municípios com mais de 500 mil habitantes (na amostra pesquisada, eram 26), metade conta com profissionais especializados.

Ao todo, 51% das secretarias municipais de saúde dizem que os investimentos de sua cidade em vigilância da qualidade da água são insuficientes.


(Envolverde/PNUD Brasil)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O lixo nosso de cada dia se transforma em negócio lucrativo

Por Sônia Araripe, da revista Plurale

Um R é igual a reduzir. Outro R pode significar reutilizar. E o terceiro, reciclar. Este conjunto de ações nunca foi tão importante. Em um cenário de centros urbanos cada vez mais congestionados, com a geração de montanhas de lixo, a solução para os resíduos tem que ser tratada como prioridade zero. O esforço conjunto, em modelo que envolve governos, empresas e a sociedade civil prevê inclusão social através de cooperativas de catadores, e tem lançado o Brasil como case de reciclagem no cenário global. O país é hoje campeão na reciclagem de latas de alumínio, por exemplo, com taxa de 96%. São aproximadamente 9,4 bilhões de latas no ano ou 26 milhões de latas recicladas diariamente. Também cresce a reciclagem de garrafas PET, latas de aço, vidro, papelão e outros materiais.

Várias empresas estão envolvidas nesta verdadeira “cruzada” em defesa não apenas de seus interesses, mas também do planeta, em última instância. Seja em trabalho individualizado ou através de associações e institutos, o setor privado tem procurado agir também junto ao poder público e em ações educativas. ONGs também têm participado ativamente deste esforço coletivo e voluntários na causa procuram fazer sua parte. Que nos digam professoras de diferentes partes do país, empenhadas em ensinar aos alunos a importância de descartar os produtos em latas de lixo das cores certas e também a evitar consumos exagerados.

Logística reversa

Há, porém, muito ainda a ser feito. Estima-se que apenas 3% de todo o lixo do país seja reciclado. Nos Estados Unidos ou na Europa, este percentual varia de cidade para cidade, mas pode chegar na faixa de 70% ou até mais. As vantagens do processo são imensas: cada 50 quilos de papel usado transformado em papel novo evita que uma árvore seja cortada e com um quilo de vidro quebrado faz-se exatamente um quilo de vidro novo. O setor de reciclagem como um todo movimenta hoje no país cerca de R$ 8 bilhões por ano, segundo dados do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre). Em 1994, 81 municípios faziam a coleta seletiva em escala significativa. Em 2004 este número avançou para 237, em 2006 para 327 e em 2008 alcançou 405 (cerca de 7% do total de municípios no país). “Precisamos ter políticas públicas bem definidas para que passemos rapidamente para um outro patamar”, recomenda André Vilhena, diretor-executivo do Cempre. Assim, esforços devem ser cada vez mais pensados no conceito de rede, envolvendo toda a cadeia produtiva, sem jamais esquecer o aspecto da inclusão social. E o lixo pode se transformar também em um grande negócio.

“Os avanços dos últimos anos são inquestionáveis. Mas será preciso avançar bem mais diante dos desafios que surgem”, adverte o consultor Carlos Rossin, sócio da Pricewaterhousecoopers. É fácil entender o que ele fala: a lei de resíduos sólidos está sendo discutida no Congresso e o que os especialistas chamam de Logística Reversa (conseguir fechar o ciclo do produto, retornando à origem) será essencial. “No mercado atual não há mais espaço para aquela empresa que pensa apenas em vender, sem se comprometer ou pensar nos efeitos para a sociedade durante todo o ciclo do produto. Até a hora do descarte”, alerta Rossin.

Lei de Resíduos

Tramita no Congresso nova proposta de Política Nacional de Resíduos Sólidos, cujo relator é o deputado Arnaldo Jardim (PPS-SP). Seu relatório final está para ser votado. O relator, já apresentou uma minuta que reformula o texto analisado há três anos. A nova versão da proposta, se aprovada pelo grupo, será levada ao Plenário como alternativa ao relatório da comissão especial. Entre as principais medidas previstas no novo texto, está a proibição da importação de pneus usados e de outros resíduos. Além disso, as empresas que fabricarem ou colocarem no mercado agrotóxicos, pilhas, baterias, pneus, óleos e lubrificantes ficarão responsáveis pela destinação adequada dos resíduos desses produtos.

Segundo Arnaldo Jardim, o Brasil está atrasado em matéria de gestão de resíduos sólidos, pelo fato de não contar ainda com uma política nacional que oriente a atuação dos órgãos governamentais nas diferentes esferas da federação. “Muitas vezes, o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) legisla nessa área, devido à ausência de uma lei geral”, afirmou.

Em entrevista à Plurale em revista, o ministro das Cidades, Marcio Fortes, disse que o ministério contribuiu com a elaboração do anteprojeto. “Criamos uma grande expectativa em torno dessa política, que tem interface com a Lei do Saneamento. Teremos, a partir dele, um instrumento legal que dará sustentabilidade às obras hoje executadas em parceria com as prefeituras, que contribuirá, também, para a organização da prestação do serviço e para a inclusão social dos catadores.”

Algumas prefeituras estão mais avançadas no trabalho, outros menos. Em um ponto é certo. O setor privado e a sociedade podem fazer parte do trabalho, mas apenas políticas públicas conseguirão realmente transformar este quadro para um novo patamar. “A nova política nos fará dar um salto em termos de gestão dos resíduos”, acredita André Vilhena, do Cempre.

No Rio, a vereadora Aspásia Camargo (PV) fez a lei da Gestão Integrada dos Resíduos Sólidos. A Gestão Integrada de Resíduos Sólidos pode ser definida como a maneira de conceber, implementar e administrar sistemas de Limpeza Pública considerando uma ampla participação de toda a administração pública e dos setores da sociedade, com a perspectiva do desenvolvimento sustentável envolvendo as dimensões ambientais, sociais, culturais, econômicas, políticas e institucionais.

Biogás

Em alguns casos, o setor privado de olho no lucro do lixo tem avançado. Para quem não sabe, não só a reciclagem, mas também a queima de lixo e até mesmo aterro sanitário - com perspectiva de geração de créditos de carbono - podem, nas mãos de gestores privados, se transformar em negócio lucrativo. No Rio, recentemente, a Novo Gramacho Energia Ambiental inaugurou nesta sexta-feira, dia 5, a Usina de Biogás do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, que produzirá por meio da decomposição de matéria orgânica do lixo cerca de 160 milhões de metros cúbicos de biogás por ano. A energia gerada com a produção de biogás será equivalente à de gás natural consumida pelas residências na cidade do Rio, evitando a liberação de 75 milhões de metros cúbicos de metano por ano na atmosfera. O projeto, o maior do Brasil em redução das emissões de gases de efeito estufa, demandará investimentos de R$ 91 milhões até a sua fase final - dos quais R$ 41 milhões já foram aplicados. O restante será investido na purificação do gás e no seu transporte, além de obras de compensação ambiental. O projeto da Novo Gramacho é também o maior do mundo em crédito de carbono em aterro sanitário com aprovação da ONU, com estimativa de obter 10 milhões de créditos de carbono em 15 anos de atividade. O papel de cada consumidor - seja individualmente ou através de pressão junto às autoridades públicas - também é muito relevante. Como reforça Helio Mattar, do Akatu, só haverá uma mudança de comportamento de consumo se o consumidor se der conta de que pequenas atitudes, repetidas ao longo do tempo, fazem muita diferença. “Dessa forma, é possível mostrar ao consumidor que seu ato individual de consumo, ao longo de sua vida, tem um impacto importante sobre a sociedade e o meio ambiente.” É importante também, acrescenta Mattar, que cada consumidor se perceba como um multiplicador de seu modelo de consumo. “Todos juntos fazem muita diferença, mesmo em pouco tempo.” É nisso que precisamos acreditar. O planeta agradece.

Revista Meio Filtrante.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Ecobags fora do “gosto” popular

Mesmo com todo apelo da necessidade de construir um mundo sustentável, muitas pessoas ainda resistem em realizar as mais simples lições de responsabilidade social e ambiental e, assim, colaborar com a preservação do meio ambiente. Fazer coleta seletiva, economizar água e energia, diminuir o uso de produtos não biodegradáveis. Atitudes como essas, ainda, esbarram na cultura de uma sociedade bastante preocupada com o próprio conforto. Com as sacolas retornáveis, mais conhecidas como ecobags, a situação não foi diferente.

Criadas com o propósito de diminuir o uso de sacolas plásticas descartáveis, a nova tecnologia ainda não encontrou espaço suficiente para se impor perante os velhos sacos plásticos, que passaram de símbolos da modernidade, nos anos cinquenta, a vilãs do meio ambiente em pouco mais de meio século. Ao contrário das sacolas plásticas, as ecobags podem ser utilizadas mais de uma vez, são laváveis e não agridem o meio ambiente.

As sacolas retornáveis podem substituir até oito sacolas plásticas e suportar até 15 quilos, o que neste caso significa a economia de 4,8 milhões de embalagens plásticas e seu descarte no meio ambiente. Calcula-se que cerca de 90% dos sacos de plástico acabam em lixeiras, como resíduos, ou como contentores de desperdícios. No total, são produzidas, aproximadamente, 210 mil toneladas de plástico filme, matéria-prima das sacolas, que se tornam cerca 10% de todo o detrito do País.

Mesmo com todos os benefícios, pouco se vê pessoas utilizando as ecobags nos supermercados. A pouca praticidade, preços dos produtos e antigos hábitos são alguns dos motivos que os resistentes alegam para não aderir às retornáveis. No entanto, a utilidade e importância delas são indiscutíveis. A oficial de justiça, Erika Braga, de 32 anos, por exemplo, sabe da necessidade de preservar o meio ambiente, se diz a favor e até defende da proposta das sacolas retornáveis, entretanto, admite que não as usa. “Eu até tenho ecobags, uso para tudo, menos para fazer feira”, explicou Erika, que acha as sacolas interessantes para pequenas compras e não para grandes feiras, por questão de acomodação dos produtos.

Apesar de ainda haver muita resistência, algumas pessoas já fazem todas as feiras com sacolas retornáveis. Mariana Maris, 21, pode ser uma formiga no universo, mas tem noção que sua atitude já colabora com a preservação do meio ambiente. “Só economizando as sacolas da minha feira, já é uma diferença muito grande”, explicou a estudante, que há dois anos só faz feira com ecobags.

De acordo com a professora do curso de engenheira ambiental da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Simone Maria da Silva, o baixo nível de educação ambiental da população é o principal motivo de resistência ao uso de sacolas retornáveis. “O que falta ao sucesso das sacolas retornáveis é um plano mais audacioso de educação ambiental, que forme cidadãos que entendam a importância de se preservar a natureza, os danos e principalmente o tempo que a natureza passa para se recuperar deles”, explicou a especialista que considera a ideia de grande importância para a preservação do meio ambiente.

(Fonte: Marcela Alves / Folha de Pernambuco)

Plásticos causam entupimento de galerias

Apesar de muitas pessoas ignorarem a importância de reduzir o uso de sacolas plásticas e continuarem a utilizá-las em grande quantidade e, várias vezes, até de forma irresponsável, muitos são os danos que a poluição provocada pelo plástico, causam ao ecossistema. Algumas dessas consequências podem ser vistas a olho nu, enquanto outras atuam de maneira mais discreta. Ao serem descartados no meio ambiente, os sacos plásticos podem ir parar nos mares, prejudicando a vida dos animais marinhos; em bueiros, causando inundações; ou até ficar por muitos anos poluindo lençóis freáticos.

Alguns desses problemas estão refletidos no próprio cotidiano urbano. De acordo com o gerente da coleta seletiva da Empresa de Limpeza Urbana do Recife (Emlurb), André Pena, os sacos plásticos, atualmente, são uma das principais causas de entupimento do sistema de captação de águas pluviais. “Essas sacolas plásticas entopem galerias, bueiros e canais, que acabam causando enchentes e alagamentos, principalmente nos períodos de chuva”, explicou Pena. Segundo ele, alguns canais da Cidade ficam completamente entupidos com sacolas plásticas e garrafas PET.
Segundo o coordenador técnico de esgoto da Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa), Fred Barbosa, é muito comum que as pessoas tirem as tampas do esgoto para que a água escorra para dentro do local, quando as galerias e bueiros estão entupidos. “Nós temos diversos problemas de obstrução de esgoto. E, metade desse lixo é plástico”, garantiu o especialista, que garante que 60% do custo de manutenção é causada pela poluição.

No entanto, a maior parte das sacolas acaba nos oceanos, sendo responsáveis por um terço da poluição dos ambientes marinhos e uma das principais causas, na atualidade, de extinção de diversos animais. “Muitos animais confundem sacolas plásticas com alimentos, o que causa a obstrução do trato gastrointestinal, impedindo a passagem de outros alimentos”, explicou a professora de morfologia e fisiologia animal da UFRPE, Rosilda Barreto. Ela alerta que, além dos animais como as tartarugas marinhas, tubarões, baleias e golfinhos, os sacos plásticos também causam a morte de vários animais bovinos que andam em áreas de lixo.

(Fonte: Folha de Pernambuco)