Publicado por Redação Plurale
O encerramento do Aterro Metropolitano de Gramacho, que por anos recebeu todo o lixo da Região Metropolitana, e a nova central de tratamento de resíduos (CTR) Ciclus, que passará a receber a partir de 2011 todo o lixo de Rio de Janeiro, Itaguaí e Seropédica, vão gerar uma redução recorde na emissão de gases de efeito estufa, através do aproveitamento bioenergético do gás formado pela decomposição dos resíduos orgânicos. A mitigação estimada nos empreendimentos é de 1,9 milhão de toneladas de CO2 por ano. É como se 1,4 milhão de carros movidos a gasolina deixassem de circular pela cidade.
A Ciclus tira a Região Metropolitana do século XX, com seus lixões a céu aberto repletos de catadores trabalhando em condições degradantes, e a coloca no século XXI. A moderna CTR será construída com a tecnologia de ponta dos países com gestão de resíduo mais avançada do mundo. O solo receberá uma tripla impermeabilização de base reforçada, com duas mantas de polietileno de alta densidade e, no meio delas, um sistema de sensores interligados para dar total segurança ao aterro. A CTR, que terá capacidade para receber 9 mil toneladas de lixo por dia, será a primeira do Brasil com tantos recursos de controle de qualidade ambiental – as novidades implementadas devem se tornar referência até para os órgãos ambientais.
O aproveitamento bioenergético é capaz de gerar 30 MW de energia quando a CTR estiver em pleno funcionamento, o que corresponde à iluminação de uma cidade de 200 mil habitantes. Além disso, nas estações de transferência de resíduos (ETRs) que beneficiarão o lixo recolhido no Rio, serão implantas usinas de geração de energia limpa a partir da destruição térmica do lixo. A tecnologia, largamente utilizada na Europa, filtra os gases poluentes, reduz significativamente o volume de lixo que vai para o aterro e gera energia.
A redução de emissões propiciada pelo novo empreendimento permitirá que a prefeitura do Rio de Janeiro cumpra a sua meta de redução de Gases de Efeito Estufa, assinada voluntariamente pelo prefeito Eduardo Paes no fim do ano passado, na ocasião da apresentação do Plano Rio Sustentável, pouco antes da Conferência das Nações Unidas (COP 15), em Copenhague. O objetivo é reduzir as emissões em 8% até 2012, 16% até 2015 e 20% até 2020. Os lixões ainda existentes na Região Metropolitana do Rio são responsáveis, ainda hoje, por uma das maiores parcelas de lançamento de gás estufa no Estado do Rio.
A nova Central de Tratamento de Resíduos do Rio é fundamental para a estratégia de tornar os Jogos Olímpicos de 2016 as olimpíadas verdes, um evento marcado pela atitude sustentável. Além disso, a redução de emissões e o encerramento dos lixões estão na lista de encargos elaborada pelo Comitê Olímpico Internacional (COI). Com o empreendimento implantado, as duas metas poderão ser cumpridas.
Fonte: Tratamento de Água
A Educação Ambiental e a informação como instrumentos de proteção e Desenvolvimento Sustentável
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
A polêmica dos resíduos de eletroeletrônicos e a Política Nacional de Resíduos
Por Érico Tooru Tanji
Vivemos no século 21, a era da informatização que propiciou o surgimento de inúmeras necessidades de consumo, entre elas, diversos aparatos tecnológicos, como aparelhos celulares, microcomputadores e outros periféricos. Eles se tornaram commodities indispensáveis, vinculados às rotinas de trabalho e à vida pessoal de cada um. Por outro lado, ainda existem vários equipamentos usados e considerados obsoletos, cujo destino após o final do uso não é bem definido.
O consumo elevado e o ritmo rápido da inovação fazem com que esses produtos se transformem em resíduos de equipamentos eletroeletrônicos (REEE). Estas sucatas aumentam de volume exponencialmente e preocupam a sociedade. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), a taxa de crescimento de resíduos eletroeletrônicos está na ordem de 40 milhões de toneladas ao ano.
A exportação dos REEE é uma solução encontrada pelos países desenvolvidos para lidar com o excesso desse passivo ambiental. Isso é possível a partir da emenda da Convenção de Basiléia, que permite a exportação desses equipamentos, ainda em funcionamento, a países não membros da OECD (Organização para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico), para que sejam reutilizados. Porém, isso ocorre, em sua maior parte, de forma ilegal, devido ao abuso por parte dos exportadores, que misturam os equipamentos em funcionamento com outros sem a menor condição de uso.
Algumas organizações ambientais internacionais, como o Greenpeace e a Rede de Ação da Basiléia, estão fazendo campanha contra as quantidades enormes de resíduos tecnológicos geradas por países subdesenvolvidos. Embora a maioria das práticas de reciclagem ofereça ameaças à saúde humana e ao meio ambiente, ainda é trabalho diário e fonte de renda para milhares de pessoas no mundo todo. A situação desses países exige uma iniciativa do Poder Público, com a adoção de Leis e Normas restritivas que caracterizem e compreendam os impactos causados pelo descarte inadequado dos REEE, especialmente restringindo a importação. Também é preciso que sejam sugeridas e subsidiadas alternativas para a destinação ambientalmente correta para esse tipo de resíduo.
Os REEE, em geral, possuem vários módulos básicos, como conjuntos de placas de circuitos impressos, cabos, plásticos anti chama, disjuntores de mercúrio, telas de tubos catódicos e de cristal líquido, pilhas e acumuladores, sensores e conectores, entre outros. As substâncias mais problemáticas presentes nestes componentes são os metais pesados, como mercúrio, chumbo, cádmio e cromo; gases, que contribuem para o aumento do efeito estufa; além de amianto e arsênio 8, substâncias que, descartadas no meio ambiente, podem contaminar o solo e reservatórios de água potável, inclusive os lençóis freáticos.
Segundo relatório do UNEP, apresentado em fevereiro de 2010, existe uma estimativa de que, até 2020, o volume dos REEE originários de computadores obsoletos poderá crescer 500% na Índia e 400% na China e África do Sul, em relação a 2007. O mesmo relatório aponta que, entre os países considerados emergentes, o Brasil tem o maior índice de REEE per capita (0,5 kg/cap.ano), seguido de México e China.
Por outro lado, o País tem um bom potencial para se adaptar a modelos mais sustentáveis no ciclo produtivo e pós-consumo, desde que ocorram investimentos em novas tecnologias e trocas de expertise. Diante disso, mesmo com seus desvios de análise, pois não considera o mercado informal especificamente da área de Tecnologia da Informação, o estudo evidencia que são necessárias ações preventivas por parte das diversas frentes envolvidas no ciclo de vida do produto, no intuito de evitar um problema futuro de maiores proporções.
Em agosto deste ano, o Presidente Lula sancionou a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que tramita há mais de 20 anos na Câmara. A regulamentação criará diretrizes para a coleta e tratamento de diversos resíduos sólidos, como pilhas, baterias, agrotóxicos, pneus, lubrificantes, pilhas e baterias, além dos REEE e as embalagens.
O que mais preocupa as empresas, especificamente as do setor de eletroeletrônicos, é a estruturação da logística reversa, pois acarreta em custos adicionais e compromete a competitividade dos produtos de indústria “legal” com o mercado paralelo, ou seja, a concorrência desleal de produtos “órfãos” do representante legal, detentora da marca no país, em grande proveniente de importadores irregulares ou mesmo de produtos falsificados. Assim, resta às empresas desenvolverem estratégias para conscientizar os seus principais usuários sobre a importância da preservação ambiental e, da mesma forma, integrar o material coletado como resíduo dentro de sua própria cadeia produtiva como forma de amortizar os custos operacionais.
Apesar de tudo é notório que cada vez mais empresas e instituições públicas valorizam cada vez mais questões de responsabilidades sócio-ambientais e éticas, nas decisões de compra e em licitações públicas (Decreto nº 7.174, de 12 de maio de 2010 sobre compras sustentáveis). O texto da Política Nacional de Resíduos Sólidos coloca em pauta a responsabilidade compartilhada sobre os resíduos entre Governo, indústria, comércio e consumidor. Este último terá que encaminhar os produtos pós-consumo para pontos de coleta.
A nova Lei prevê uma regulamentação e adaptação de 90 dias para as Secretarias de Meio Ambiente de cada Estado iniciar o estabelecimento efetivo da responsabilidade pós-consumo de cada parte envolvida, seguindo com a apresentação de Acordos Setoriais ou mesmo com um Decreto que regulamentará e definirá as premissas para a apresentação e protocolação do Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos da indústria e das empresas da cadeia varejista. O Poder Público, por sua vez, incentivará movimentos de boas práticas, prevendo que a União dispenda R$ 1 bilhão em 2011 para financiamento de ações de reciclagem. A Caixa Econômica Federal oferecerá R$ 500 milhões em crédito para cooperativas de catadores e projetos que visam ao tratamento de resíduos sólidos.
Esperamos que este importante movimento não seja uma ação que objetiva a arrecadação de votos, mas, sim, um primeiro passo para encontrarmos soluções para a regularização dos diversos lixões, que não têm o aterramento adequado para os resíduos recebidos. E que, também, mobilize toda sociedade e Poder Público para a preservação e convivência sustentável do homem com o ambiente em que está inserido.
*Érico Tooru Tanji é analista de Comunicação e Sustentabilidade da OKI Printing Solutions do Brasil.
Fonte: Cotidiano Digital
Vivemos no século 21, a era da informatização que propiciou o surgimento de inúmeras necessidades de consumo, entre elas, diversos aparatos tecnológicos, como aparelhos celulares, microcomputadores e outros periféricos. Eles se tornaram commodities indispensáveis, vinculados às rotinas de trabalho e à vida pessoal de cada um. Por outro lado, ainda existem vários equipamentos usados e considerados obsoletos, cujo destino após o final do uso não é bem definido.
O consumo elevado e o ritmo rápido da inovação fazem com que esses produtos se transformem em resíduos de equipamentos eletroeletrônicos (REEE). Estas sucatas aumentam de volume exponencialmente e preocupam a sociedade. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), a taxa de crescimento de resíduos eletroeletrônicos está na ordem de 40 milhões de toneladas ao ano.
A exportação dos REEE é uma solução encontrada pelos países desenvolvidos para lidar com o excesso desse passivo ambiental. Isso é possível a partir da emenda da Convenção de Basiléia, que permite a exportação desses equipamentos, ainda em funcionamento, a países não membros da OECD (Organização para a Cooperação do Desenvolvimento Econômico), para que sejam reutilizados. Porém, isso ocorre, em sua maior parte, de forma ilegal, devido ao abuso por parte dos exportadores, que misturam os equipamentos em funcionamento com outros sem a menor condição de uso.
Algumas organizações ambientais internacionais, como o Greenpeace e a Rede de Ação da Basiléia, estão fazendo campanha contra as quantidades enormes de resíduos tecnológicos geradas por países subdesenvolvidos. Embora a maioria das práticas de reciclagem ofereça ameaças à saúde humana e ao meio ambiente, ainda é trabalho diário e fonte de renda para milhares de pessoas no mundo todo. A situação desses países exige uma iniciativa do Poder Público, com a adoção de Leis e Normas restritivas que caracterizem e compreendam os impactos causados pelo descarte inadequado dos REEE, especialmente restringindo a importação. Também é preciso que sejam sugeridas e subsidiadas alternativas para a destinação ambientalmente correta para esse tipo de resíduo.
Os REEE, em geral, possuem vários módulos básicos, como conjuntos de placas de circuitos impressos, cabos, plásticos anti chama, disjuntores de mercúrio, telas de tubos catódicos e de cristal líquido, pilhas e acumuladores, sensores e conectores, entre outros. As substâncias mais problemáticas presentes nestes componentes são os metais pesados, como mercúrio, chumbo, cádmio e cromo; gases, que contribuem para o aumento do efeito estufa; além de amianto e arsênio 8, substâncias que, descartadas no meio ambiente, podem contaminar o solo e reservatórios de água potável, inclusive os lençóis freáticos.
Segundo relatório do UNEP, apresentado em fevereiro de 2010, existe uma estimativa de que, até 2020, o volume dos REEE originários de computadores obsoletos poderá crescer 500% na Índia e 400% na China e África do Sul, em relação a 2007. O mesmo relatório aponta que, entre os países considerados emergentes, o Brasil tem o maior índice de REEE per capita (0,5 kg/cap.ano), seguido de México e China.
Por outro lado, o País tem um bom potencial para se adaptar a modelos mais sustentáveis no ciclo produtivo e pós-consumo, desde que ocorram investimentos em novas tecnologias e trocas de expertise. Diante disso, mesmo com seus desvios de análise, pois não considera o mercado informal especificamente da área de Tecnologia da Informação, o estudo evidencia que são necessárias ações preventivas por parte das diversas frentes envolvidas no ciclo de vida do produto, no intuito de evitar um problema futuro de maiores proporções.
Em agosto deste ano, o Presidente Lula sancionou a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que tramita há mais de 20 anos na Câmara. A regulamentação criará diretrizes para a coleta e tratamento de diversos resíduos sólidos, como pilhas, baterias, agrotóxicos, pneus, lubrificantes, pilhas e baterias, além dos REEE e as embalagens.
O que mais preocupa as empresas, especificamente as do setor de eletroeletrônicos, é a estruturação da logística reversa, pois acarreta em custos adicionais e compromete a competitividade dos produtos de indústria “legal” com o mercado paralelo, ou seja, a concorrência desleal de produtos “órfãos” do representante legal, detentora da marca no país, em grande proveniente de importadores irregulares ou mesmo de produtos falsificados. Assim, resta às empresas desenvolverem estratégias para conscientizar os seus principais usuários sobre a importância da preservação ambiental e, da mesma forma, integrar o material coletado como resíduo dentro de sua própria cadeia produtiva como forma de amortizar os custos operacionais.
Apesar de tudo é notório que cada vez mais empresas e instituições públicas valorizam cada vez mais questões de responsabilidades sócio-ambientais e éticas, nas decisões de compra e em licitações públicas (Decreto nº 7.174, de 12 de maio de 2010 sobre compras sustentáveis). O texto da Política Nacional de Resíduos Sólidos coloca em pauta a responsabilidade compartilhada sobre os resíduos entre Governo, indústria, comércio e consumidor. Este último terá que encaminhar os produtos pós-consumo para pontos de coleta.
A nova Lei prevê uma regulamentação e adaptação de 90 dias para as Secretarias de Meio Ambiente de cada Estado iniciar o estabelecimento efetivo da responsabilidade pós-consumo de cada parte envolvida, seguindo com a apresentação de Acordos Setoriais ou mesmo com um Decreto que regulamentará e definirá as premissas para a apresentação e protocolação do Plano de Gerenciamento de Resíduos Sólidos da indústria e das empresas da cadeia varejista. O Poder Público, por sua vez, incentivará movimentos de boas práticas, prevendo que a União dispenda R$ 1 bilhão em 2011 para financiamento de ações de reciclagem. A Caixa Econômica Federal oferecerá R$ 500 milhões em crédito para cooperativas de catadores e projetos que visam ao tratamento de resíduos sólidos.
Esperamos que este importante movimento não seja uma ação que objetiva a arrecadação de votos, mas, sim, um primeiro passo para encontrarmos soluções para a regularização dos diversos lixões, que não têm o aterramento adequado para os resíduos recebidos. E que, também, mobilize toda sociedade e Poder Público para a preservação e convivência sustentável do homem com o ambiente em que está inserido.
*Érico Tooru Tanji é analista de Comunicação e Sustentabilidade da OKI Printing Solutions do Brasil.
Fonte: Cotidiano Digital
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Uma garrafa que salva vidas
Por Elis Monteiro - Plurale
Olhar no relógio pode ser doloroso depois desse dado: segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a cada oito segundos morre uma criança no planeta vítima de doenças relacionadas ao consumo de água contaminada.
O relatório, divulgado pela instituição no Dia Mundial da Água, foi taxativo: mais pessoas morrem devido ao consumo de água contaminada do que por violência no mundo. Estamos tratando, aqui, do lado crônico da “doença”, mas as últimas tragédias que o mundo tem enfrentado – tsunami na Ásia, terremoto no Haiti e no Chile, enchentes no Nordeste do Brasil e no Paquistão, dentre outras – demonstraram que a questão da água é urgente e demanda soluções rápidas, correndo-se o risco de as estatísticas ficarem ainda mais dramáticas.
Visando a ajudar a curar a doença crônica e tirar da manga uma solução em momentos de tragédia, um cientista inglês chamado Michael Pritchard pôs em prática uma ideia genial: criou um produto portátil capaz de filtrar a água – mesmo a mais imunda do planeta – e, em questão de segundos, torná-la potável. Assim nasceu a Lifesaver, espécie de garrafinha mágica, que já chegou ao Brasil, que tira partido da Nanotecnologia através de um sistema de ultrafiltragem altamente avançado projetado para ajudar a salvar vidas oferecendo às pessoas água potável limpa livre de contaminação, por mais remota que seja a localidade. A boa notícia é que através de parcerias com empresas e organizações do terceiro setor, a tecnologia Lifesaver, que conta com a chancela da Organização Mundial da Saúde (OMS), começará a ser levada a regiões como Alagoas e Pernambuco, dois dos estados assolados recentemente por enchentes.
Durante as recentes intempéries, um dos maiores problemas enfrentados pela população foi justamente a falta de água potável, em meio ao oceano de água suja. No mês de julho, a enchente que atingiu 67 municípios pernambucanos e deixou desabrigadas ou desalojadas mais de 80 mil pessoas também trouxe o fantasma da sede. Foi chamariz, a reboque, para a voraz indústria da água, já que a única saída para a população era comprar garrafas de água mineral a preços exorbitantes ou encarar os carros-pipa, sem a certeza se o líquido consumido era de confiança.
A enchente no interior de Alagoas arrasou 19 cidades, desabrigou 80 mil pessoas e fez 26 vítimas fatais. Mesmo depois de os níveis de água terem baixado, a tragédia continua assombrando a população do Nordeste. Isso porque o perigo das enchentes não reside apenas na força destruidora das águas, mas também nas doenças que o esgoto a céu aberto é capaz de transmitir.
A cidade de Murici, a 35 quilômetros de Santana do Mundaú, por exemplo, foi completamente devastada. Quem perdeu a casa, encontrou teto em galpões de uma fábrica, um local improvisado, cheio de lama, onde as crianças brincavam no lixo. Naquela localidade, mais de 1.5 mil pessoas perderam suas casas e foram abrigadas em locais com condições de higiene precárias, o que facilitou a transmissão de germes que causam vômitos, diarreia, infecções de pele e doenças respiratórias. Em um dos galpões, ficaram abrigadas 50 famílias, que contavam com apenas dois banheiros que viviam entupidos, sem água encanada. A água usada nos banheiros ficava em caixas instaladas na beira da estrada, abastecidas por caminhões-pipa. E aqui o grande problema: a mesma água, de procedência desconhecida, é usada para tomar banho, cozinhar e beber.
“A ideia de trazer o Lifesaver para o Brasil foi uma maneira de prover um benefício imensurável, auxiliando a redução da mortalidade infantil por doenças contraídas a partir do consumo de água contaminada - principalmente nas regiões do Nordeste, Amazônia, Pantanal e comunidades não providas de saneamento e fornecimento de água potável - para pessoas que há anos buscam condições de vida mais dignas”, diz Leonardo Eloi, sócio da Ecotrends Group, empresa carioca que trabalha com produtos sustentáveis e está levando o Lifesaver para o interior do país, através de parcerias com governos estaduais e prefeituras e ONGs que trabalham com ações humanitárias.
Como funciona a Lifesaver
O uso da nanotecnologia permite que poros de aproximadamente 15 nanômetros de diâmetro, usados pelo filtro da tecnologia Lifesaver, sejam capazes de reter qualquer tipo de micro-organismo. Assim, a água que passa ali não só sai inodora e insípida como livre de qualquer organismo vivo já encontrado no planeta. Só para se ter uma ideia, a menor bactéria conhecida pela ciência, a da Tuberculose, tem cerca de 200 nanômetros. O menor vírus, o da Pólio, tem cerca de 25 nanômetros de diâmetro. Como os poros do Lifesaver têm 15 nanômetros de espessura, eles retêm qualquer organismo, deixando a água não só potável como extremamente segura para consumo humano.
A garrafinha Lifesaver usa também a tecnologia FailSafe. Em termos simples, isso significa que quando o cartucho atinge capacidade máxima de filtragem, ele se bloqueia automaticamente, evitando que o usuário beba água contaminada. Neste momento, é preciso trocar o filtro, o que pode levar anos para acontecer, dependendo da quantidade de água filtrada pela unidade de Lifesaver.
“Por ser portátil e de fácil utilização, qualquer criança ou pessoa com menos instrução pode utilizar a garrafa Lifesaver sem problemas. Basta enchê-la (de água suja, inclusive com dejetos humanos e de animais), bombear e beber”, conta Leonardo Eloi.
ONU: 1.5 milhão de crianças com menos de cinco anos morrem por ano por causa de água suja
O consumo de água doente é hoje uma das principais preocupações da ONU, tanto que a entidade divulgou um documento chamado “Sick Water” (Água Doente), no qual afirma que o acesso a água limpa e saneamento básico é direito humano. Durante sua última Assembleia Geral, a organização divulgou, dentre outras informações alarmantes, que 900 milhões de pessoas ao redor do planeta não têm acesso a água limpa. O texto da resolução expressa uma profunda preocupação: 884 milhões de pessoas sofrem de males terríveis causadas por água suja. Tem mais: cerca de 1.5 milhão de crianças abaixo dos cinco anos de idade morrem todo ano por beber água doente, e 443 milhões de dias na escola estão sendo perdidos todo ano por conta de doenças causadas por saneamento básico precário. Ou seja, não é um problema que impacta apenas a saúde pública, mas também a educação.
Foi durante o furacão que assolou Nova Orleans, em 2005, que Michael Pritchard teve a ideia de criar a Lifesaver. Em palestra realizada no TEDGlobal, um dos principais eventos de inovação do planeta (palestra com legenda está disponível em www.ted.com) o inglês contou que estava sentado, depois do Natal de 2004, enquanto assistia às notícias devastadoras sobre o tsunami na Ásia. Disse ele: “Nos dias e semanas que se seguiram, pessoas fugiam para os morros e eram obrigadas a beber água contaminada ou encarar a morte. Isso realmente me impressionou. Alguns meses depois, o furacão Katrina arrebentou parte da América. Pensei: ‘Ok, esse é um país de primeiro mundo, vamos ver o que eles vão fazer’. Dia um: nada; dia dois, nada; foram necessários cinco dias para levar água ao estádio Superdome! As pessoas estavam atirando umas nas outras nas ruas por TV e...água! Foi quando decidi que tinha que fazer algo”, conta Pritchard.
Pritchard fez. E o produto que criou já salvou milhares de vida durante o terremoto do Haiti, em janeiro deste ano, e até hoje o Lifesaver é responsável pelo acesso a água limpa a milhares de haitianos. Naquele país, a Lifesaver foi usada pela ONG Operation Blessing, a mesma que começa a trabalhar ao lado da Ecotrends no Brasil para levar o produto – e suas benesses – aos necessitados do Nordeste. Agora, as duas entidades, em parceria com governos locais, começam a traçar estratégias em conjunto para atuação em caso de enchentes e outras intempéries, além de traçar metas para levar o produto às comunidades que, mesmo localizadas no entorno de grandes cidades, continuam à mercê de água proveniente de poços, lagos, açudes, córregos e até mesmo lama. Tudo para não morrerem de sede. Infelizmente, em muitos casos a sede não mata, mas as doenças que chegam através do líquido precioso, sim.
“De acordo com a Agência Nacional de Águas, 17 milhões de brasileiros ainda não têm acesso a água potável. Segundo a UNICEF, na América Latina e no Caribe cerca de 20 mil crianças morrem antes de completarem cinco anos de idade devido a diarreias agudas, o que poderia ser evitado mediante o acesso a condições de higiene adequadas, infraestrutura de saneamento e água potável”, completa Eloi.
Fonte: Tratamento de Água
Olhar no relógio pode ser doloroso depois desse dado: segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a cada oito segundos morre uma criança no planeta vítima de doenças relacionadas ao consumo de água contaminada.
O relatório, divulgado pela instituição no Dia Mundial da Água, foi taxativo: mais pessoas morrem devido ao consumo de água contaminada do que por violência no mundo. Estamos tratando, aqui, do lado crônico da “doença”, mas as últimas tragédias que o mundo tem enfrentado – tsunami na Ásia, terremoto no Haiti e no Chile, enchentes no Nordeste do Brasil e no Paquistão, dentre outras – demonstraram que a questão da água é urgente e demanda soluções rápidas, correndo-se o risco de as estatísticas ficarem ainda mais dramáticas.
Visando a ajudar a curar a doença crônica e tirar da manga uma solução em momentos de tragédia, um cientista inglês chamado Michael Pritchard pôs em prática uma ideia genial: criou um produto portátil capaz de filtrar a água – mesmo a mais imunda do planeta – e, em questão de segundos, torná-la potável. Assim nasceu a Lifesaver, espécie de garrafinha mágica, que já chegou ao Brasil, que tira partido da Nanotecnologia através de um sistema de ultrafiltragem altamente avançado projetado para ajudar a salvar vidas oferecendo às pessoas água potável limpa livre de contaminação, por mais remota que seja a localidade. A boa notícia é que através de parcerias com empresas e organizações do terceiro setor, a tecnologia Lifesaver, que conta com a chancela da Organização Mundial da Saúde (OMS), começará a ser levada a regiões como Alagoas e Pernambuco, dois dos estados assolados recentemente por enchentes.
Durante as recentes intempéries, um dos maiores problemas enfrentados pela população foi justamente a falta de água potável, em meio ao oceano de água suja. No mês de julho, a enchente que atingiu 67 municípios pernambucanos e deixou desabrigadas ou desalojadas mais de 80 mil pessoas também trouxe o fantasma da sede. Foi chamariz, a reboque, para a voraz indústria da água, já que a única saída para a população era comprar garrafas de água mineral a preços exorbitantes ou encarar os carros-pipa, sem a certeza se o líquido consumido era de confiança.
A enchente no interior de Alagoas arrasou 19 cidades, desabrigou 80 mil pessoas e fez 26 vítimas fatais. Mesmo depois de os níveis de água terem baixado, a tragédia continua assombrando a população do Nordeste. Isso porque o perigo das enchentes não reside apenas na força destruidora das águas, mas também nas doenças que o esgoto a céu aberto é capaz de transmitir.
A cidade de Murici, a 35 quilômetros de Santana do Mundaú, por exemplo, foi completamente devastada. Quem perdeu a casa, encontrou teto em galpões de uma fábrica, um local improvisado, cheio de lama, onde as crianças brincavam no lixo. Naquela localidade, mais de 1.5 mil pessoas perderam suas casas e foram abrigadas em locais com condições de higiene precárias, o que facilitou a transmissão de germes que causam vômitos, diarreia, infecções de pele e doenças respiratórias. Em um dos galpões, ficaram abrigadas 50 famílias, que contavam com apenas dois banheiros que viviam entupidos, sem água encanada. A água usada nos banheiros ficava em caixas instaladas na beira da estrada, abastecidas por caminhões-pipa. E aqui o grande problema: a mesma água, de procedência desconhecida, é usada para tomar banho, cozinhar e beber.
“A ideia de trazer o Lifesaver para o Brasil foi uma maneira de prover um benefício imensurável, auxiliando a redução da mortalidade infantil por doenças contraídas a partir do consumo de água contaminada - principalmente nas regiões do Nordeste, Amazônia, Pantanal e comunidades não providas de saneamento e fornecimento de água potável - para pessoas que há anos buscam condições de vida mais dignas”, diz Leonardo Eloi, sócio da Ecotrends Group, empresa carioca que trabalha com produtos sustentáveis e está levando o Lifesaver para o interior do país, através de parcerias com governos estaduais e prefeituras e ONGs que trabalham com ações humanitárias.
Como funciona a Lifesaver
O uso da nanotecnologia permite que poros de aproximadamente 15 nanômetros de diâmetro, usados pelo filtro da tecnologia Lifesaver, sejam capazes de reter qualquer tipo de micro-organismo. Assim, a água que passa ali não só sai inodora e insípida como livre de qualquer organismo vivo já encontrado no planeta. Só para se ter uma ideia, a menor bactéria conhecida pela ciência, a da Tuberculose, tem cerca de 200 nanômetros. O menor vírus, o da Pólio, tem cerca de 25 nanômetros de diâmetro. Como os poros do Lifesaver têm 15 nanômetros de espessura, eles retêm qualquer organismo, deixando a água não só potável como extremamente segura para consumo humano.
A garrafinha Lifesaver usa também a tecnologia FailSafe. Em termos simples, isso significa que quando o cartucho atinge capacidade máxima de filtragem, ele se bloqueia automaticamente, evitando que o usuário beba água contaminada. Neste momento, é preciso trocar o filtro, o que pode levar anos para acontecer, dependendo da quantidade de água filtrada pela unidade de Lifesaver.
“Por ser portátil e de fácil utilização, qualquer criança ou pessoa com menos instrução pode utilizar a garrafa Lifesaver sem problemas. Basta enchê-la (de água suja, inclusive com dejetos humanos e de animais), bombear e beber”, conta Leonardo Eloi.
ONU: 1.5 milhão de crianças com menos de cinco anos morrem por ano por causa de água suja
O consumo de água doente é hoje uma das principais preocupações da ONU, tanto que a entidade divulgou um documento chamado “Sick Water” (Água Doente), no qual afirma que o acesso a água limpa e saneamento básico é direito humano. Durante sua última Assembleia Geral, a organização divulgou, dentre outras informações alarmantes, que 900 milhões de pessoas ao redor do planeta não têm acesso a água limpa. O texto da resolução expressa uma profunda preocupação: 884 milhões de pessoas sofrem de males terríveis causadas por água suja. Tem mais: cerca de 1.5 milhão de crianças abaixo dos cinco anos de idade morrem todo ano por beber água doente, e 443 milhões de dias na escola estão sendo perdidos todo ano por conta de doenças causadas por saneamento básico precário. Ou seja, não é um problema que impacta apenas a saúde pública, mas também a educação.
Foi durante o furacão que assolou Nova Orleans, em 2005, que Michael Pritchard teve a ideia de criar a Lifesaver. Em palestra realizada no TEDGlobal, um dos principais eventos de inovação do planeta (palestra com legenda está disponível em www.ted.com) o inglês contou que estava sentado, depois do Natal de 2004, enquanto assistia às notícias devastadoras sobre o tsunami na Ásia. Disse ele: “Nos dias e semanas que se seguiram, pessoas fugiam para os morros e eram obrigadas a beber água contaminada ou encarar a morte. Isso realmente me impressionou. Alguns meses depois, o furacão Katrina arrebentou parte da América. Pensei: ‘Ok, esse é um país de primeiro mundo, vamos ver o que eles vão fazer’. Dia um: nada; dia dois, nada; foram necessários cinco dias para levar água ao estádio Superdome! As pessoas estavam atirando umas nas outras nas ruas por TV e...água! Foi quando decidi que tinha que fazer algo”, conta Pritchard.
Pritchard fez. E o produto que criou já salvou milhares de vida durante o terremoto do Haiti, em janeiro deste ano, e até hoje o Lifesaver é responsável pelo acesso a água limpa a milhares de haitianos. Naquele país, a Lifesaver foi usada pela ONG Operation Blessing, a mesma que começa a trabalhar ao lado da Ecotrends no Brasil para levar o produto – e suas benesses – aos necessitados do Nordeste. Agora, as duas entidades, em parceria com governos locais, começam a traçar estratégias em conjunto para atuação em caso de enchentes e outras intempéries, além de traçar metas para levar o produto às comunidades que, mesmo localizadas no entorno de grandes cidades, continuam à mercê de água proveniente de poços, lagos, açudes, córregos e até mesmo lama. Tudo para não morrerem de sede. Infelizmente, em muitos casos a sede não mata, mas as doenças que chegam através do líquido precioso, sim.
“De acordo com a Agência Nacional de Águas, 17 milhões de brasileiros ainda não têm acesso a água potável. Segundo a UNICEF, na América Latina e no Caribe cerca de 20 mil crianças morrem antes de completarem cinco anos de idade devido a diarreias agudas, o que poderia ser evitado mediante o acesso a condições de higiene adequadas, infraestrutura de saneamento e água potável”, completa Eloi.
Fonte: Tratamento de Água
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
BIOECONOMIA
Por Marcus Eduardo de Oliveira
Na compreensão dos processos econômicos contemporâneos, algo de extrema importância não pode escapar da estratégia envolvida na construção dos caminhos que apontam para uma economia solidária (com justiça social equilibrada) e para um modelo de crescimento econômico centralmente sustentável (também com equilíbrio e respeito ao meio ambiente).
Os termos “equilibrado e sustentável” são aqui empregados de forma adrede. Com isso, desejamos apontar para a necessidade de que todos convivam pacificamente de forma equilibrada e sustentada ao longo do tempo em suas relações com o meio ambiente. A razão disso? É simples! O sistema econômico que aí está, grosso modo, para atender as nossas necessidades opera dentro do meio ambiente. Esse sistema é, ademais, apenas um subsistema de algo maior: o próprio meio ambiente. E, caso a relação economia / natureza não seja ao menos equilibrada, o caos logo se avizinha.
Nunca é desnecessário comentar que há uma intensa interação entre economia e natureza, pois é sabido que do meio ambiente o sistema econômico retira recursos naturais para serem transformados em bens e serviços visando promover, na ponta final, o consumo. Consumo esse que, por sua vez, atenderá necessidades múltiplas de todos nós.
A necessidade do contextualizado “equilíbrio” entre recursos econômicos e recursos naturais decorre, portanto, da conscientização de que essa relação de extração natural feita pela economia é na maior parte do tempo pouco inteligente e muito agressiva, uma vez que envolve geração de resíduos, rejeitos e poluentes (tanto no ato da produção em si, como no descarte dos produtos após o uso). Logo, caso não seja realizado a contento, tal processo de extração tende a se converter e potencializar novos desequilíbrios. Percebe-se assim, contudo, que o sistema econômico produtivo tem então uma capacidade ímpar em desequilibrar e também em poluir: polui e desequilibra na entrada (retirando recursos naturais) e na saída (descartando-os).
Conquanto, foi justamente a partir dessa relação nada amistosa e muito desequilibrada entre esses atores principais – economia / natureza – que em meados da década de 1960 começou a surgir explicações técnicas que davam conta da imprescindível necessidade de mudar o rumo do processo produtivo. Àquela altura já se vislumbrava claramente que as constantes agressões ao ambiente somente poderiam gerar passivos ambientais.
Entrementes, foi dessa constatação que também surgiu outra visão econômica que envolvia tanto a biologia como a física; ambas, por sinal, se “relacionavam” à sua maneira com as teorias econômicas consolidadas até então.
Nesse pormenor, cumpre destacar uma idéia teórica que ganhou certa proeminência, embora ainda hoje continua “apagada”, ao menos dentro da abordagem feita pela tradicional teoria econômica: trata-se do que se convencionou chamar posteriormente de bioeconomia.
O que seria isso? Bioeconomia seria a base científica da economia. Na essência, a bioeconomia pode ser definida como um conceito de desenvolvimento que pressupõe novas relações com o meio ambiente, com o planeta Terra em si e com as pessoas.
Federico Chicchi, sociólogo italiano e um dos mais preparados estudiosos desse assunto, aponta que “a bioeconomia refere-se ao processo de captura da vida e à produção da própria vida no interior das regras do discurso econômico”.
Para René Passet, outro renomado especialista no assunto, a bioeconomia é o “novo paradigma da economia”. Esse pensador francês destaca que o conceito de bioeconomia surgiu como conseqüência do alerta ecológico dos anos 1960/70, que descobriu o processo econômico como uma extensão da evolução biológica. A termodinâmica e a biológica são os seus fundamentos. O seu objetivo, diz Passet, “é integrar as atividades econômicas nos sistemas naturais porque as leis da macroeconomia não se reduzem às da microeconomia”. O interesse geral, aponta Passet, “(…) é muito mais do que a soma das partes. Os mecanismos naturais (como o ar, a água) não têm que ver com as leis de mercado; por sinal, problemas com esses bens comuns e naturais transcendem a lógica das nações e dos mercados”.
Dessa forma, na visão de Passet, com a qual corroboramos, a economia situa-se além de si mesma e vislumbra um novo modelo de desenvolvimento, chamado, pois, de bioeconômico. E esse modelo para se efetivar precisa ser de caráter integrador, caso contrário, malogrará.
Pontua-se, para enfatizar-se a questão, que esse seria um modelo capaz de conciliar os interesses públicos, privados e solidários com o interesse amplo e geral. Uma vez mais se ressoa aqui que o interesse geral é para as pessoas. Na esteira desse comentário, enaltecemos que a economia tem tudo a ver com um projeto de desenvolvimento que envolva as pessoas, caso contrário não se sustenta na linha do tempo tendendo a se desequilibrar mais cedo ou mais tarde. As pessoas e o desenvolvimento precisam andar juntos. Os objetivos econômicos precisam apontar para essa realização. Só há verdadeiro desenvolvimento quando as pessoas são por essa ocorrência contempladas. De nada adianta ocorrer desenvolvimento das instituições, por exemplo, se essas não forem colocadas à disposição das pessoas. São as pessoas, essencialmente, as responsáveis por fazer funcionar a economia, as instituições, e o próprio mercado.
Ademais, uma vez que esse processo macro envolve sensivelmente as pessoas, nada mais natural que abordar então as relações da natureza, tendo em vista que o homem não é dono do meio ambiente (do planeta Terra), mas sim um de seus hóspedes e dele verdadeiramente depende para o prosseguimento de seu próprio viver.
Infelizmente, esse hóspede tem se comportado como aquele inquilino que, descontente com o valor do aluguel, chega a “maltratar” sua moradia.
Aproximação econômica ao vivente e aproximação “vivente” ao econômico
Por esse prisma bem peculiar, em nosso entendimento a bioeconomia não deve ser apenas entendida como uma aproximação econômica ao vivente, mas sim como uma aproximação “vivente” à própria modelagem econômica. E essa simbiose necessita ser bem sincronizada. A economia, é forçoso afirmar, é uma atividade de transformação calculada que tem como finalidade precípua satisfazer, da melhor forma e com o mínimo de meios empregados, as necessidades humanas mais elementares. E onde estão mesmo os elementos indispensáveis para o atendimento a essas necessidades? Ora, é evidente que está na natureza todo e qualquer recurso necessário para a produção dos bens que nos suprirá as necessidades. E a economia, como não poderia deixar de ser, participa ativamente desse processo.
Nunca é demais aduzir, a título de comentários finais, que a economia intervém em três níveis: i) transformação e cálculo; ii) o nível humano; e iii) o nível natural.
Finalizando essa discussão, cabe retomar a linha de raciocínio de Passet para pontuar que esses três níveis citados são interdependentes e a reprodução do econômico implica a das sociedades humanas e a da natureza como um todo. O bioeconômico então, conforme afirmado aqui, se insere no campo das preocupações fundamentais que estão na perspectiva ampla de se discutir a prática daquilo que possa ser considerada uma boa economia. Isso envolve, sobremaneira, respeitar o meio ambiente e, antes disso, tecer de forma equilibrada as relações que moldam a própria vida.
No entanto, constata-se que infelizmente nem sempre esse assunto ganha espaço e alcança mais ouvidos. Todavia, é nosso dever contribuir para aguçar esse debate ainda que seja necessário remar contra a maré; ainda que seja preciso gritar para ouvidos que insistem em permanecer moucos.
Marcus Eduardo de Oliveira é Economista, professor, especialista em Política Internacional com mestrado pela (USP). Autor dos livros “Conversando sobre Economia”, “Pensando como um Economista” e “Provocações Econômicas” (no prelo).
Fonte: EcoDebate
Na compreensão dos processos econômicos contemporâneos, algo de extrema importância não pode escapar da estratégia envolvida na construção dos caminhos que apontam para uma economia solidária (com justiça social equilibrada) e para um modelo de crescimento econômico centralmente sustentável (também com equilíbrio e respeito ao meio ambiente).
Os termos “equilibrado e sustentável” são aqui empregados de forma adrede. Com isso, desejamos apontar para a necessidade de que todos convivam pacificamente de forma equilibrada e sustentada ao longo do tempo em suas relações com o meio ambiente. A razão disso? É simples! O sistema econômico que aí está, grosso modo, para atender as nossas necessidades opera dentro do meio ambiente. Esse sistema é, ademais, apenas um subsistema de algo maior: o próprio meio ambiente. E, caso a relação economia / natureza não seja ao menos equilibrada, o caos logo se avizinha.
Nunca é desnecessário comentar que há uma intensa interação entre economia e natureza, pois é sabido que do meio ambiente o sistema econômico retira recursos naturais para serem transformados em bens e serviços visando promover, na ponta final, o consumo. Consumo esse que, por sua vez, atenderá necessidades múltiplas de todos nós.
A necessidade do contextualizado “equilíbrio” entre recursos econômicos e recursos naturais decorre, portanto, da conscientização de que essa relação de extração natural feita pela economia é na maior parte do tempo pouco inteligente e muito agressiva, uma vez que envolve geração de resíduos, rejeitos e poluentes (tanto no ato da produção em si, como no descarte dos produtos após o uso). Logo, caso não seja realizado a contento, tal processo de extração tende a se converter e potencializar novos desequilíbrios. Percebe-se assim, contudo, que o sistema econômico produtivo tem então uma capacidade ímpar em desequilibrar e também em poluir: polui e desequilibra na entrada (retirando recursos naturais) e na saída (descartando-os).
Conquanto, foi justamente a partir dessa relação nada amistosa e muito desequilibrada entre esses atores principais – economia / natureza – que em meados da década de 1960 começou a surgir explicações técnicas que davam conta da imprescindível necessidade de mudar o rumo do processo produtivo. Àquela altura já se vislumbrava claramente que as constantes agressões ao ambiente somente poderiam gerar passivos ambientais.
Entrementes, foi dessa constatação que também surgiu outra visão econômica que envolvia tanto a biologia como a física; ambas, por sinal, se “relacionavam” à sua maneira com as teorias econômicas consolidadas até então.
Nesse pormenor, cumpre destacar uma idéia teórica que ganhou certa proeminência, embora ainda hoje continua “apagada”, ao menos dentro da abordagem feita pela tradicional teoria econômica: trata-se do que se convencionou chamar posteriormente de bioeconomia.
O que seria isso? Bioeconomia seria a base científica da economia. Na essência, a bioeconomia pode ser definida como um conceito de desenvolvimento que pressupõe novas relações com o meio ambiente, com o planeta Terra em si e com as pessoas.
Federico Chicchi, sociólogo italiano e um dos mais preparados estudiosos desse assunto, aponta que “a bioeconomia refere-se ao processo de captura da vida e à produção da própria vida no interior das regras do discurso econômico”.
Para René Passet, outro renomado especialista no assunto, a bioeconomia é o “novo paradigma da economia”. Esse pensador francês destaca que o conceito de bioeconomia surgiu como conseqüência do alerta ecológico dos anos 1960/70, que descobriu o processo econômico como uma extensão da evolução biológica. A termodinâmica e a biológica são os seus fundamentos. O seu objetivo, diz Passet, “é integrar as atividades econômicas nos sistemas naturais porque as leis da macroeconomia não se reduzem às da microeconomia”. O interesse geral, aponta Passet, “(…) é muito mais do que a soma das partes. Os mecanismos naturais (como o ar, a água) não têm que ver com as leis de mercado; por sinal, problemas com esses bens comuns e naturais transcendem a lógica das nações e dos mercados”.
Dessa forma, na visão de Passet, com a qual corroboramos, a economia situa-se além de si mesma e vislumbra um novo modelo de desenvolvimento, chamado, pois, de bioeconômico. E esse modelo para se efetivar precisa ser de caráter integrador, caso contrário, malogrará.
Pontua-se, para enfatizar-se a questão, que esse seria um modelo capaz de conciliar os interesses públicos, privados e solidários com o interesse amplo e geral. Uma vez mais se ressoa aqui que o interesse geral é para as pessoas. Na esteira desse comentário, enaltecemos que a economia tem tudo a ver com um projeto de desenvolvimento que envolva as pessoas, caso contrário não se sustenta na linha do tempo tendendo a se desequilibrar mais cedo ou mais tarde. As pessoas e o desenvolvimento precisam andar juntos. Os objetivos econômicos precisam apontar para essa realização. Só há verdadeiro desenvolvimento quando as pessoas são por essa ocorrência contempladas. De nada adianta ocorrer desenvolvimento das instituições, por exemplo, se essas não forem colocadas à disposição das pessoas. São as pessoas, essencialmente, as responsáveis por fazer funcionar a economia, as instituições, e o próprio mercado.
Ademais, uma vez que esse processo macro envolve sensivelmente as pessoas, nada mais natural que abordar então as relações da natureza, tendo em vista que o homem não é dono do meio ambiente (do planeta Terra), mas sim um de seus hóspedes e dele verdadeiramente depende para o prosseguimento de seu próprio viver.
Infelizmente, esse hóspede tem se comportado como aquele inquilino que, descontente com o valor do aluguel, chega a “maltratar” sua moradia.
Aproximação econômica ao vivente e aproximação “vivente” ao econômico
Por esse prisma bem peculiar, em nosso entendimento a bioeconomia não deve ser apenas entendida como uma aproximação econômica ao vivente, mas sim como uma aproximação “vivente” à própria modelagem econômica. E essa simbiose necessita ser bem sincronizada. A economia, é forçoso afirmar, é uma atividade de transformação calculada que tem como finalidade precípua satisfazer, da melhor forma e com o mínimo de meios empregados, as necessidades humanas mais elementares. E onde estão mesmo os elementos indispensáveis para o atendimento a essas necessidades? Ora, é evidente que está na natureza todo e qualquer recurso necessário para a produção dos bens que nos suprirá as necessidades. E a economia, como não poderia deixar de ser, participa ativamente desse processo.
Nunca é demais aduzir, a título de comentários finais, que a economia intervém em três níveis: i) transformação e cálculo; ii) o nível humano; e iii) o nível natural.
Finalizando essa discussão, cabe retomar a linha de raciocínio de Passet para pontuar que esses três níveis citados são interdependentes e a reprodução do econômico implica a das sociedades humanas e a da natureza como um todo. O bioeconômico então, conforme afirmado aqui, se insere no campo das preocupações fundamentais que estão na perspectiva ampla de se discutir a prática daquilo que possa ser considerada uma boa economia. Isso envolve, sobremaneira, respeitar o meio ambiente e, antes disso, tecer de forma equilibrada as relações que moldam a própria vida.
No entanto, constata-se que infelizmente nem sempre esse assunto ganha espaço e alcança mais ouvidos. Todavia, é nosso dever contribuir para aguçar esse debate ainda que seja necessário remar contra a maré; ainda que seja preciso gritar para ouvidos que insistem em permanecer moucos.
Marcus Eduardo de Oliveira é Economista, professor, especialista em Política Internacional com mestrado pela (USP). Autor dos livros “Conversando sobre Economia”, “Pensando como um Economista” e “Provocações Econômicas” (no prelo).
Fonte: EcoDebate
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Ação humana ameaça 65% da biodiversidade dos rios
Por Rogério Ferro, do Instituto Akatu
Poluição e construção excessiva de barragens e hidrelétricas colocam em risco a vida peixes e outros microorganismos aquáticos; situação deixa 80% da população mundial sujeita à escassez de água.
Os recursos hídricos e sua biodiversidade estão em crise no planeta, tudo por conta da ação humana. Hoje, 65% das espécies estão ameaçadas de extinção, principalmente por viverem em rios que sofrem diretamente os impactos das atividades econômicas e que estão sob a ameaça da poluição ali despejada, das grandes barragens e das práticas de pesca predatória. Mais: cerca de 3,4 bilhões de pessoas dos países pobres e emergentes estão sujeitas a escassez de água pelos mesmos motivos.
As informações são do estudo “Ameaças globais à segurança hídrica e à biodiversidade dos rios”, publicado na versão online da revista científica Nature, de 29 de setembro. O trabalho de pesquisa foi conduzido por especialistas da Universidade de Nova York e da Universidade de Wisconsin, além de sete outras instituições.
As ações para remediar a situação custariam aos países, juntos, cerca de R$ 850 bilhões por ano.
Segundo o estudo, a porção brasileira do rio Amazonas ainda está bem preservada, em comparação à nascente, situada no Peru. "A maior parte do Amazonas está sob risco moderado, porque há baixa ocupação humana na sua extensão e há grandes porções de florestas no entorno", relata o documento.
Em geral, “os rios mais ameaçados do país são justamente os que estão mais próximos dos grandes centros urbanos, nas regiões Sudeste e Nordeste.”
Entretanto, alguns rios atravessam diversas comunidades e isso significa que um ato isolado, pode causar impactos em todas as pessoas que de alguma forma se relacionam com ele.
Os resíduos poluentes jogados no rio Tietê, por exemplo, que atravessa o Estado de São Paulo e é o mais poluído do país, são o resultado de descartes operado pelos agentes da cidade, sejam moradores ou estabelecimentos comerciais, industriais ou agrícolas. Esgotos não tratados, efluentes químicos, todo tipo de lixo e até móveis, sem falar nos plásticos, que chegam ao rio irregular ou ilegalmente, são a causa da poluição que deteriora as condições da água e acaba com o oxigênio, causando a morte de organismos e dos peixes. Além de prejudicar a pesca artesanal, o rio, morto, torna-se um vetor de doenças graves para as comunidades banhadas por suas águas.
“O consumidor precisa tomar consciência que seu consumo individual tem impactos não só no meio ambiente, mas também na sociedade e na economia e, deve buscar maximizar os positivos e minimizar os negativos”, afirma Camila Mello, gerente de Mobilização Comunitária do Instituto Akatu.
Entre 1992 e 2008, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) gastou R$ 2,7 bilhões em ações de limpeza, despoluição e instalação de sistemas de tratamento de esgoto no rio Tietê.
“Considerando que esse mal poderia ser amenizado por meio do descarte correto dos resíduos, boa parte dessa verba poderia ter sido usada para melhorar a qualidade de serviços públicos como saúde, educação e segurança”, destaca Mello.
A ONU (Organização das Nações Unidas) declarou 2010 como Ano Internacional da Biodiversidade.
Envolverde/Instituto Akatu
Poluição e construção excessiva de barragens e hidrelétricas colocam em risco a vida peixes e outros microorganismos aquáticos; situação deixa 80% da população mundial sujeita à escassez de água.
Os recursos hídricos e sua biodiversidade estão em crise no planeta, tudo por conta da ação humana. Hoje, 65% das espécies estão ameaçadas de extinção, principalmente por viverem em rios que sofrem diretamente os impactos das atividades econômicas e que estão sob a ameaça da poluição ali despejada, das grandes barragens e das práticas de pesca predatória. Mais: cerca de 3,4 bilhões de pessoas dos países pobres e emergentes estão sujeitas a escassez de água pelos mesmos motivos.
As informações são do estudo “Ameaças globais à segurança hídrica e à biodiversidade dos rios”, publicado na versão online da revista científica Nature, de 29 de setembro. O trabalho de pesquisa foi conduzido por especialistas da Universidade de Nova York e da Universidade de Wisconsin, além de sete outras instituições.
As ações para remediar a situação custariam aos países, juntos, cerca de R$ 850 bilhões por ano.
Segundo o estudo, a porção brasileira do rio Amazonas ainda está bem preservada, em comparação à nascente, situada no Peru. "A maior parte do Amazonas está sob risco moderado, porque há baixa ocupação humana na sua extensão e há grandes porções de florestas no entorno", relata o documento.
Em geral, “os rios mais ameaçados do país são justamente os que estão mais próximos dos grandes centros urbanos, nas regiões Sudeste e Nordeste.”
Entretanto, alguns rios atravessam diversas comunidades e isso significa que um ato isolado, pode causar impactos em todas as pessoas que de alguma forma se relacionam com ele.
Os resíduos poluentes jogados no rio Tietê, por exemplo, que atravessa o Estado de São Paulo e é o mais poluído do país, são o resultado de descartes operado pelos agentes da cidade, sejam moradores ou estabelecimentos comerciais, industriais ou agrícolas. Esgotos não tratados, efluentes químicos, todo tipo de lixo e até móveis, sem falar nos plásticos, que chegam ao rio irregular ou ilegalmente, são a causa da poluição que deteriora as condições da água e acaba com o oxigênio, causando a morte de organismos e dos peixes. Além de prejudicar a pesca artesanal, o rio, morto, torna-se um vetor de doenças graves para as comunidades banhadas por suas águas.
“O consumidor precisa tomar consciência que seu consumo individual tem impactos não só no meio ambiente, mas também na sociedade e na economia e, deve buscar maximizar os positivos e minimizar os negativos”, afirma Camila Mello, gerente de Mobilização Comunitária do Instituto Akatu.
Entre 1992 e 2008, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) gastou R$ 2,7 bilhões em ações de limpeza, despoluição e instalação de sistemas de tratamento de esgoto no rio Tietê.
“Considerando que esse mal poderia ser amenizado por meio do descarte correto dos resíduos, boa parte dessa verba poderia ter sido usada para melhorar a qualidade de serviços públicos como saúde, educação e segurança”, destaca Mello.
A ONU (Organização das Nações Unidas) declarou 2010 como Ano Internacional da Biodiversidade.
Envolverde/Instituto Akatu
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Contaminantes emergentes na água
Por Fábio Reynol - Ag. Fapesp
Durante a década de 1990, houve uma redução na população de jacarés que habitava os pântanos da Flórida, nos Estados Unidos. Ao investigar o problema, cientistas perceberam que os machos da espécie tinham pênis menores do que o normal, além de apresentar baixos índices do hormônio masculino testosterona.
Os estudos verificaram que as mudanças hormonais que estavam alterando o fenótipo dos animais e prejudicando sua reprodução foram desencadeadas por pesticidas clorados empregados em plantações naquela região.
Esses produtos químicos eram aplicados de acordo com a legislação norte-americana, a qual estabelecia limites máximos baseados em sua toxicidade, mas não considerava a alteração hormonal que eles provocavam, simplesmente porque os efeitos não eram conhecidos.
Assim como os pântanos da Flórida, corpos d’água de vários pontos do planeta estão sendo contaminados com diferentes coquetéis que podem conter princípios ativos de medicamentos, componentes de plásticos, hormônios naturais e artificiais, antibióticos, defensivos agrícolas e muitos outros em quantidades e proporções diversas e com efeitos desconhecidos para os animais aquáticos e também para pessoas que consomem essas águas.
“Em algumas dessas áreas, meninas estão menstruando cada vez mais cedo e, nos homens, o número de espermatozoides despencou nos últimos 50 anos. Esses são alguns problemas cujos motivos ninguém conseguiu explicar até agora e que podem estar relacionados a produtos presentes na água que bagunçam o ciclo hormonal”, disse Wilson Jardim, professor titular do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), à Agência FAPESP.
O pesquisador conta que esses contaminantes, chamados emergentes, podem estar por trás de vários outros efeitos relacionados tanto à saúde humana como aos ecossistemas aquáticos.
“Como não são aplicados métodos de tratamento que retirem esses contaminantes, as cidades que ficam à jusante de um rio bebem o esgoto das que ficam à montante”, alertou o pesquisador que coordena o Projeto Temático “Ocorrência e atividade estrogênica de interferentes endócrinos em água para consumo humano e em mananciais do Estado de São Paulo”, apoiado pela FAPESP.
O aumento no consumo de cosméticos, de artigos de limpeza e de medicamentos tem piorado a situação, de acordo com o pesquisador, cujo grupo encontrou diversos tipos de produtos em amostras de água retirada de rios no Estado de São Paulo. O antiinflamatório diclofenaco, o analgésico ácido acetilsalicílico e o bactericida triclosan, empregado em enxaguatórios bucais, são apenas alguns exemplos.
A esses se soma uma crescente coleção de cosméticos que engorda o lixo químico que vai parar nos cursos d’água sem receber tratamento algum. “Estima-se que uma pessoa utilize, em média, dez produtos cosméticos e de higiene todos os dias antes mesmo de sair de casa”, disse Jardim.
Sem uma legislação que faça as empresas de distribuição retirar essas substâncias tanto do esgoto a ser jogado nos rios como da água deles captada, tem sido cada vez mais comum encontrar interferentes hormonais nas torneiras das residências. Os filtros domésticos disponíveis no mercado não dão conta dessa limpeza.
“Os métodos utilizados pelas estações de tratamento de água brasileiras são em geral seculares. Eles não incorporaram novas tecnologias, como a oxidação avançada, a osmose inversa e a ultrafiltração”, disse o professor da Unicamp, afirmando acreditar que tais métodos só serão incorporados pelas empresas por meio de uma legislação específica, uma vez que eles encareceriam o tratamento.
Peixes feminilizados
Uma das primeiras cidades a enfrentar esse tipo de contaminação foi Las Vegas, nos Estados Unidos. Em meio a um deserto, o município depende de uma grande quantidade de água retirada do lago Mead, o qual também recebe o esgoto da cidade.
Apesar de contar com um bom tratamento de esgoto, a água da cidade acabou provocando alterações hormonais nas comunidades de animais aquáticos do lago, com algumas espécies de peixes tendo apresentado altos índices de feminilização. Universidades e concessionárias de água se uniram para estudar o problema e chegaram à conclusão de que o esgoto precisava de melhor tratamento.
“Foi uma abordagem madura, racional e que contou com o apoio da população, que se mostrou disposta a até pagar mais em troca de uma água limpa desses contaminantes”, contou Jardim.
Alterações como o odor na água são indicadores de contaminantes como o bisfenol A, produto que está presente em diversos tipos de plásticos e que pode afetar a fertilidade, de acordo com pesquisas feitas com ratos no Instituto de Biociências do campus de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Jardim alerta que o bisfenol A é um interferente endócrino comprovado que afeta especialmente organismos em formação, o que o torna perigoso no desenvolvimento endócrino das crianças. Além dele, a equipe da Unicamp também identificou atrazina, um pesticida utilizado na agricultura.
Não apenas produtos que alteram a produção hormonal foram detectados na pesquisa, há ainda outros que afetam o ambiente e têm efeitos desconhecidos no consumo humano. Um deles é o triclosan, bactericida empregado em enxaguatórios bucais cuja capacidade biocida aumenta sob o efeito dos raios solares.
Se o efeito individual de cada um desses produtos é perigoso, pouco se sabe sobre os resultados de misturas entre eles. A interação entre diferentes químicos em proporções e quantidades inconstantes e reunidos ao acaso produz novos compostos dos quais pouco se conhecem os efeitos.
“A realidade é que não estamos expostos a cada produto individualmente, mas a uma mistura deles. Se dois compostos são interferentes endócrinos quando separados, ao juntá-los não significará, necessariamente, que eles vão se potencializar”, disse Jardim.
Segundo ele, essas interações são muito complexas. Para complicar, todos os dados de que a ciência dispõe no momento são para compostos individuais.
Superbactérias
Outra preocupação do pesquisador é a presença de antibióticos nas águas dos rios. Por meio do projeto “Antibióticos na bacia do rio Atibaia”, apoiado pela FAPESP por meio de um Auxílio à Pesquisa – Regular, Jardim e sua equipe analisaram de 2007 a 2009 a presença de antibióticos populares na água do rio paulista.
A parte da análise ficou por conta do doutorando Marco Locatelli, que identificou concentrações de cefalexina, ciprofloxacina, amoxicilina e trimetrotrin em amostras da água do Atibaia.
A automedicação e o consumo exacerbado desse tipo de medicamento foram apontados por Jardim como as principais causas dessa contaminação que apresenta como risco maior o desenvolvimento de “superbactérias”, microrganismos muito resistentes à ação desses antibióticos.
Todas essas questões foram debatidas no fim de 2009 durante o 1º Workshop sobre Contaminantes Emergentes em Águas para Consumo Humano, na Unicamp. O evento foi coordenado por Jardim e recebeu o apoio FAPESP por meio de um Auxílio à Pesquisa – Organização de Reunião Científica e/ou Tecnológica.
O professor da Unicamp reforça a gravidade da questão da água, uma vez que pode afetar de inúmeras maneiras a saúde da população e o meio ambiente. “Isso já deve estar ocorrendo de forma silenciosa e não está recebendo a devida atenção”, alertou.
Fonte: Portal Tratamento de Água
Durante a década de 1990, houve uma redução na população de jacarés que habitava os pântanos da Flórida, nos Estados Unidos. Ao investigar o problema, cientistas perceberam que os machos da espécie tinham pênis menores do que o normal, além de apresentar baixos índices do hormônio masculino testosterona.
Os estudos verificaram que as mudanças hormonais que estavam alterando o fenótipo dos animais e prejudicando sua reprodução foram desencadeadas por pesticidas clorados empregados em plantações naquela região.
Esses produtos químicos eram aplicados de acordo com a legislação norte-americana, a qual estabelecia limites máximos baseados em sua toxicidade, mas não considerava a alteração hormonal que eles provocavam, simplesmente porque os efeitos não eram conhecidos.
Assim como os pântanos da Flórida, corpos d’água de vários pontos do planeta estão sendo contaminados com diferentes coquetéis que podem conter princípios ativos de medicamentos, componentes de plásticos, hormônios naturais e artificiais, antibióticos, defensivos agrícolas e muitos outros em quantidades e proporções diversas e com efeitos desconhecidos para os animais aquáticos e também para pessoas que consomem essas águas.
“Em algumas dessas áreas, meninas estão menstruando cada vez mais cedo e, nos homens, o número de espermatozoides despencou nos últimos 50 anos. Esses são alguns problemas cujos motivos ninguém conseguiu explicar até agora e que podem estar relacionados a produtos presentes na água que bagunçam o ciclo hormonal”, disse Wilson Jardim, professor titular do Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), à Agência FAPESP.
O pesquisador conta que esses contaminantes, chamados emergentes, podem estar por trás de vários outros efeitos relacionados tanto à saúde humana como aos ecossistemas aquáticos.
“Como não são aplicados métodos de tratamento que retirem esses contaminantes, as cidades que ficam à jusante de um rio bebem o esgoto das que ficam à montante”, alertou o pesquisador que coordena o Projeto Temático “Ocorrência e atividade estrogênica de interferentes endócrinos em água para consumo humano e em mananciais do Estado de São Paulo”, apoiado pela FAPESP.
O aumento no consumo de cosméticos, de artigos de limpeza e de medicamentos tem piorado a situação, de acordo com o pesquisador, cujo grupo encontrou diversos tipos de produtos em amostras de água retirada de rios no Estado de São Paulo. O antiinflamatório diclofenaco, o analgésico ácido acetilsalicílico e o bactericida triclosan, empregado em enxaguatórios bucais, são apenas alguns exemplos.
A esses se soma uma crescente coleção de cosméticos que engorda o lixo químico que vai parar nos cursos d’água sem receber tratamento algum. “Estima-se que uma pessoa utilize, em média, dez produtos cosméticos e de higiene todos os dias antes mesmo de sair de casa”, disse Jardim.
Sem uma legislação que faça as empresas de distribuição retirar essas substâncias tanto do esgoto a ser jogado nos rios como da água deles captada, tem sido cada vez mais comum encontrar interferentes hormonais nas torneiras das residências. Os filtros domésticos disponíveis no mercado não dão conta dessa limpeza.
“Os métodos utilizados pelas estações de tratamento de água brasileiras são em geral seculares. Eles não incorporaram novas tecnologias, como a oxidação avançada, a osmose inversa e a ultrafiltração”, disse o professor da Unicamp, afirmando acreditar que tais métodos só serão incorporados pelas empresas por meio de uma legislação específica, uma vez que eles encareceriam o tratamento.
Peixes feminilizados
Uma das primeiras cidades a enfrentar esse tipo de contaminação foi Las Vegas, nos Estados Unidos. Em meio a um deserto, o município depende de uma grande quantidade de água retirada do lago Mead, o qual também recebe o esgoto da cidade.
Apesar de contar com um bom tratamento de esgoto, a água da cidade acabou provocando alterações hormonais nas comunidades de animais aquáticos do lago, com algumas espécies de peixes tendo apresentado altos índices de feminilização. Universidades e concessionárias de água se uniram para estudar o problema e chegaram à conclusão de que o esgoto precisava de melhor tratamento.
“Foi uma abordagem madura, racional e que contou com o apoio da população, que se mostrou disposta a até pagar mais em troca de uma água limpa desses contaminantes”, contou Jardim.
Alterações como o odor na água são indicadores de contaminantes como o bisfenol A, produto que está presente em diversos tipos de plásticos e que pode afetar a fertilidade, de acordo com pesquisas feitas com ratos no Instituto de Biociências do campus de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
Jardim alerta que o bisfenol A é um interferente endócrino comprovado que afeta especialmente organismos em formação, o que o torna perigoso no desenvolvimento endócrino das crianças. Além dele, a equipe da Unicamp também identificou atrazina, um pesticida utilizado na agricultura.
Não apenas produtos que alteram a produção hormonal foram detectados na pesquisa, há ainda outros que afetam o ambiente e têm efeitos desconhecidos no consumo humano. Um deles é o triclosan, bactericida empregado em enxaguatórios bucais cuja capacidade biocida aumenta sob o efeito dos raios solares.
Se o efeito individual de cada um desses produtos é perigoso, pouco se sabe sobre os resultados de misturas entre eles. A interação entre diferentes químicos em proporções e quantidades inconstantes e reunidos ao acaso produz novos compostos dos quais pouco se conhecem os efeitos.
“A realidade é que não estamos expostos a cada produto individualmente, mas a uma mistura deles. Se dois compostos são interferentes endócrinos quando separados, ao juntá-los não significará, necessariamente, que eles vão se potencializar”, disse Jardim.
Segundo ele, essas interações são muito complexas. Para complicar, todos os dados de que a ciência dispõe no momento são para compostos individuais.
Superbactérias
Outra preocupação do pesquisador é a presença de antibióticos nas águas dos rios. Por meio do projeto “Antibióticos na bacia do rio Atibaia”, apoiado pela FAPESP por meio de um Auxílio à Pesquisa – Regular, Jardim e sua equipe analisaram de 2007 a 2009 a presença de antibióticos populares na água do rio paulista.
A parte da análise ficou por conta do doutorando Marco Locatelli, que identificou concentrações de cefalexina, ciprofloxacina, amoxicilina e trimetrotrin em amostras da água do Atibaia.
A automedicação e o consumo exacerbado desse tipo de medicamento foram apontados por Jardim como as principais causas dessa contaminação que apresenta como risco maior o desenvolvimento de “superbactérias”, microrganismos muito resistentes à ação desses antibióticos.
Todas essas questões foram debatidas no fim de 2009 durante o 1º Workshop sobre Contaminantes Emergentes em Águas para Consumo Humano, na Unicamp. O evento foi coordenado por Jardim e recebeu o apoio FAPESP por meio de um Auxílio à Pesquisa – Organização de Reunião Científica e/ou Tecnológica.
O professor da Unicamp reforça a gravidade da questão da água, uma vez que pode afetar de inúmeras maneiras a saúde da população e o meio ambiente. “Isso já deve estar ocorrendo de forma silenciosa e não está recebendo a devida atenção”, alertou.
Fonte: Portal Tratamento de Água
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
TRANSPOSIÇÃO DE ÁGUAS DO RIO SÃO FRANCISCO PARA O SERTÃO ALAGOANO
Por Paulo Afonso da Mata Machado
O semi-árido brasileiro, uma região de elevadas temperaturas, abriga uma população de cerca de 20 milhões de habitantes. A precipitação pluviométrica anual oscila entre 400 e 800 mm, mas se concentra nos meses do chamado inverno, tornando necessário o armazenamento da água de chuva. A infra-estrutura de armazenamento de água do semi-árido dispõe de mais de 36 bilhões de metros cúbicos. Contudo, devido ao regime de concentração de chuvas, são grandes as perdas por vertimento e, durante o longo período de escassez pluviométrica, as perdas por evaporação são muito maiores.
Uma opção ao armazenamento de água de chuva têm sido as águas de superfície, já que o semi-árido dispõe de dois grandes rios: o São Francisco e o Parnaíba. São esses rios e seus afluentes que fornecem a maior quantidade de água para as atividades rurais da região.
A maior parte do estado de Alagoas se concentra no semi-árido e se distribui por diversas bacias hidrográficas, entre elas a do Rio São Francisco. É desse rio que parte o maior número de sistemas coletivos de abastecimento de água do estado, visto ser o único com vazão segura em todos os períodos do ano.
Em Alagoas, está sendo construído o canal do sertão, pelo qual o São Francisco vai fornecer até 32 m3/s para 42 municípios, muitos deles na bacia do Rio Coruripe, substituindo os sistemas coletivos de abastecimento de água, numa nova transposição, a terceira do Velho Chico.
A transposição para o sertão alagoano quebrará diversos paradigmas. O primeiro deles se refere a uma deliberação do comitê da bacia do São Francisco proibindo a saída de água da bacia a não ser exclusivamente para consumo humano e dessedentação animal. O canal do sertão fornecerá água aos núcleos urbanos em toda sua extensão, destacando-se uma vazão de 1.500 m3/h (0,42 m3/s) captados pela empresa de saneamento alagoana (CASAL), em que 500 m3/h estão destinados à Mineradora Vale Verde. O canal fornecerá água para diversas atividades como dessedentação do rebanho, irrigação do pasto, desenvolvimento da piscicultura e criação de condições de produção agrícola contínua por meio de seis grandes projetos de irrigação. A água transferida da bacia do Rio São Francisco não será, portanto, exclusivamente para abastecimento humano e dessedentação animal.
Um segundo paradigma a ser quebrado é o de que a retirada de água da bacia do São Francisco, principalmente próximo à foz, poderia aumentar o problema da cunha salina. Da mesma forma que o aumento na vazão de transposição para Aracaju não afetou em nada a cunha salina no Velho Chico (que é motivada principalmente pela precipitação de sólidos na hidrelétrica de Xingó), a captação de água no reservatório da usina Moxotó, no baixo São Francisco, não aumentará a ocorrência da cunha salina.
Um terceiro paradigma se refere aos canais a céu aberto. Quando foi feito o PISF, houve inúmeras críticas de que a água da transposição não chegaria ao seu destino no Nordeste Setentrional, pois evaporaria antes. Isso não acontecerá, porque a intensidade de evaporação na água em movimento é muito inferior à da água parada. Os canais a céu aberto na transposição para o sertão de Alagoas demonstram que o projeto é semelhante ao do PISF.
Outro paradigma que será quebrado será a comparação do São Francisco a um doente na UTI, impossibilitado de doar sangue. O São Francisco, com sua vazão segura definida por deliberações do comitê de sua bacia, continua pujante como sempre e totalmente capaz de abastecer as necessidades hídricas, mesmo de pessoas que não habitam sua bacia.
Finalmente, há outro paradigma que precisa ser quebrado. Os habitantes do sertão alagoano devem parar de atacar o projeto de transposição de águas do Rio São Francisco para o Nordeste Setentrional (PISF). Afinal, o canal do sertão, com sua capacidade máxima de 32 m3/s, supera a vazão firme conjunta dos dois eixos de transposição para o Nordeste Setentrional. Não fica bem cuspir no prato em que se vai comer.
* Paulo Afonso da Mata Machado: Analista do Banco Central do Brasil; Engenheiro Civil e Sanitarista pela UFMG; Mestre em Engenharia do Meio Ambiente pela Rice University.
Fonte: EcoDebate
O semi-árido brasileiro, uma região de elevadas temperaturas, abriga uma população de cerca de 20 milhões de habitantes. A precipitação pluviométrica anual oscila entre 400 e 800 mm, mas se concentra nos meses do chamado inverno, tornando necessário o armazenamento da água de chuva. A infra-estrutura de armazenamento de água do semi-árido dispõe de mais de 36 bilhões de metros cúbicos. Contudo, devido ao regime de concentração de chuvas, são grandes as perdas por vertimento e, durante o longo período de escassez pluviométrica, as perdas por evaporação são muito maiores.
Uma opção ao armazenamento de água de chuva têm sido as águas de superfície, já que o semi-árido dispõe de dois grandes rios: o São Francisco e o Parnaíba. São esses rios e seus afluentes que fornecem a maior quantidade de água para as atividades rurais da região.
A maior parte do estado de Alagoas se concentra no semi-árido e se distribui por diversas bacias hidrográficas, entre elas a do Rio São Francisco. É desse rio que parte o maior número de sistemas coletivos de abastecimento de água do estado, visto ser o único com vazão segura em todos os períodos do ano.
Em Alagoas, está sendo construído o canal do sertão, pelo qual o São Francisco vai fornecer até 32 m3/s para 42 municípios, muitos deles na bacia do Rio Coruripe, substituindo os sistemas coletivos de abastecimento de água, numa nova transposição, a terceira do Velho Chico.
A transposição para o sertão alagoano quebrará diversos paradigmas. O primeiro deles se refere a uma deliberação do comitê da bacia do São Francisco proibindo a saída de água da bacia a não ser exclusivamente para consumo humano e dessedentação animal. O canal do sertão fornecerá água aos núcleos urbanos em toda sua extensão, destacando-se uma vazão de 1.500 m3/h (0,42 m3/s) captados pela empresa de saneamento alagoana (CASAL), em que 500 m3/h estão destinados à Mineradora Vale Verde. O canal fornecerá água para diversas atividades como dessedentação do rebanho, irrigação do pasto, desenvolvimento da piscicultura e criação de condições de produção agrícola contínua por meio de seis grandes projetos de irrigação. A água transferida da bacia do Rio São Francisco não será, portanto, exclusivamente para abastecimento humano e dessedentação animal.
Um segundo paradigma a ser quebrado é o de que a retirada de água da bacia do São Francisco, principalmente próximo à foz, poderia aumentar o problema da cunha salina. Da mesma forma que o aumento na vazão de transposição para Aracaju não afetou em nada a cunha salina no Velho Chico (que é motivada principalmente pela precipitação de sólidos na hidrelétrica de Xingó), a captação de água no reservatório da usina Moxotó, no baixo São Francisco, não aumentará a ocorrência da cunha salina.
Um terceiro paradigma se refere aos canais a céu aberto. Quando foi feito o PISF, houve inúmeras críticas de que a água da transposição não chegaria ao seu destino no Nordeste Setentrional, pois evaporaria antes. Isso não acontecerá, porque a intensidade de evaporação na água em movimento é muito inferior à da água parada. Os canais a céu aberto na transposição para o sertão de Alagoas demonstram que o projeto é semelhante ao do PISF.
Outro paradigma que será quebrado será a comparação do São Francisco a um doente na UTI, impossibilitado de doar sangue. O São Francisco, com sua vazão segura definida por deliberações do comitê de sua bacia, continua pujante como sempre e totalmente capaz de abastecer as necessidades hídricas, mesmo de pessoas que não habitam sua bacia.
Finalmente, há outro paradigma que precisa ser quebrado. Os habitantes do sertão alagoano devem parar de atacar o projeto de transposição de águas do Rio São Francisco para o Nordeste Setentrional (PISF). Afinal, o canal do sertão, com sua capacidade máxima de 32 m3/s, supera a vazão firme conjunta dos dois eixos de transposição para o Nordeste Setentrional. Não fica bem cuspir no prato em que se vai comer.
* Paulo Afonso da Mata Machado: Analista do Banco Central do Brasil; Engenheiro Civil e Sanitarista pela UFMG; Mestre em Engenharia do Meio Ambiente pela Rice University.
Fonte: EcoDebate
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