quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Estresse hídrico: O Brasil já sente os reflexos da escassez de água

Por Cleide Carvalho, em O Globo


ONU declara 2013 como o Ano Internacional da Cooperação pela Água.

Até o Brasil, rico neste recurso natural, já sente os reflexos da escassez. Estudos da ANA mostram que, de um total de 29 aglomerados urbanos no país, 16 já precisam buscar novos mananciais para garantir o abastecimento até 2015


Em pouco mais de duas décadas, o mundo terá nove bilhões de pessoas, um acréscimo de dois bilhões à população. Se um terço deste total engrossar as fileiras de consumidores da classe média, a pressão sobre os recursos naturais do planeta se tornará insustentável. Só o consumo de água aumentará 30%. Haverá necessidade de produzir 50% a mais de alimentos, e a oferta de energia terá de crescer 45%. “As economias estão oscilando. A desigualdade está crescendo. E as temperaturas globais continuam subindo. Estamos testando a capacidade do planeta de nos sustentar” resumiram os 22 integrantes do Painel de Alto Nível da Secretaria-geral das Nações Unidas numa análise da sustentabilidade global entregue há exato um ano à cúpula da ONU.

Se nada for feito para mudar o padrão de consumo, dois terços da população global poderão sofrer com escassez de água doce até 2025. A previsão é da própria ONU, que de­clarou 2013 o Ano Internacional da Coopera­ção pela Água. Também aqui há risco de es­cassez. Um estudo da Agência Nacional de Águas (ANA) mostra que, dos 29 maiores aglomerados urbanos do país, 16 precisam achar novos mananciais para garantir o abas­tecimento até 2015. São 472 municípios em busca de novas fontes de água, 56 deles ficam em três Regiões Metropolitanas do estado de São Paulo (Campinas, Baixada Santista e a própria capital).

— Tivemos forte urbanização onde não havia água — resume Dante Ragazzini, presi­dente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental.

A água doce está em rios, lagos, geleiras e aquíferos, mas representa apenas 2,5% do to­tal de água da Terra. Nem toda ela é acessível ao consumo humano e, pior, a distribuição é desigual entre os países. Mesmo no Brasil, que ostenta a maior reserva de águas doces superficiais do planeta (12% do total), as con­dições de acesso não são equânimes. A região hidrográfica Amazônica — que abrange Ama­zonas, Amapá, Acre, Rondônia, Roraima e grande parcela do Pará e do Mato Grosso — equivale a 45% do território nacional e detém 81% da disponibilidade hídrica. As regiões li­torâneas, que respondem por apenas 3% da oferta nacional, abrigam 45% da população do país. Ou seja, os brasileiros se concentram cada vez mais em áreas onde a oferta de água é desfavorável.

O problema também é social. Calcula-se que 12,1 milhões de brasileiros não têm aces­so adequado ao abastecimento de água. As moradias “sem torneira” somam 4,2 milhões. O consumo é bastante desigual. Enquanto um cidadão do Rio de Janeiro usa 236 litros de água por dia, o consumo per capita em Alagoas é de 91 litros. Em São Paulo, 185 litros.

Para a ONU, a quantidade de água do pla­neta é suficiente para atender a população mundial, mas não há mais espaço para o des­perdício. No Canadá, o consumo per capita chega a 600 litros por dia. Enquanto isso, cer­ca de 783 milhões de pessoas no mundo não têm acesso à água potável.

O consumo de água dos paulistanos é 4,3 vezes maior do que a água que há disponível. Só na Região Metropolitana de São Paulo são 19,9 milhões de consumidores, 10,4% da po­pulação do país. Principal fornecedora do es­tado, a Sabesp vem buscando água limpa a 80 km de distância, na represa Cachoeira do França, no Rio Juquiá, para atender um uni­verso de 1,3 milhão de pessoas na Zona Oeste da capital e em municípios vizinhos. O novo sistema teve que ser inserido no maior rema­nescente de Mata Atlântica no estado, o Vale do Ribeira.

A escassez de água não é o único dilema. O consumo humano exige que ela seja limpa e tratada, mas o crescimento das cidades engo­le mananciais. As águas superficiais ficam poluídas com o lançamento de esgoto, eflu­entes industriais e até mesmo venenos usa­dos em larga escala na agricultura.

Bacias, como as de Alto Iguaçu (PR), Rio Mogi Guaçu (SP), Rio Ivinhema (MS) e a do Rio Pará (MG), apresentaram queda no índi­ce de qualidade de água no último levanta­mento publicado. Segundo dados da ANA, os motivos prováveis são o aumento da carga de esgotos domésticos e a falta de investimentos em saneamento. No meio rural, a poluição difusa e o uso do solo sem manejo causam as­soreamento, piorando a qualidade das águas.

No Brasil, 73% dos municípios são abaste­cidos com águas superficiais, sujeitas a todo tipo de poluentes. É importante lembrar que, quando os jesuítas fundaram São Paulo, ha­via abundância nos rios Tietê, Pinheiros, Anhangabaú e Tamanduateí. Hoje, o Tietê é pura lama no trecho que corta a cidade. A au­sência de planejamento no passado colocou em risco mananciais e represas do entorno, como Billings e Guarapiranga, que foram in­vadidos, desmatados e poluídos.

— Cuidamos mal da pouca água que temos. Poluímos 24 horas por dia. Mais de R$ 3 bi­lhões já foram gastos na despoluição do Rio Tietê e não se vê a diferença. Se não estancar o esgoto, a natureza sozinha não consegue reparar o dano. Os reservatórios também estão sendo poluídos e a água tem de ser tratada para voltar a ser potável — diz Édison Carlos, presidente executivo do Instituto Trata Brasil.

Nem mesmo as águas profundas estão a salvo da degradação e da exploração em ex­cesso. Nos últimos anos, ocorreu um aumen­to significativo no consumo de água subterrâ­nea no país. O estado de São Paulo é o maior usuário. São mais de mil poços, com três mi­lhões de pessoas beneficiadas. Em alguns deles, a água sai quente e precisa ser resfriada.

Em capitais do Nordeste, como Recife, Na­tal e Maceió, a falta de saneamento adequado fez com que o esgoto alcançasse poços. O ex­cessivo bombeamento de águas profundas na região costeira e até mesmo métodos de pro­dução de camarões, que aumentam a intru­são do mar, também geram problemas de salinização de aquíferos. Já foram identificados indícios do problema nas regiões oceânicas de Niterói e Rio das Ostras, no Rio de Janeiro, assim como no sistema aquífero Barreiras, no Rio Grande do Norte, e nas cidades de São Luís e Maceió.

Na medida em que a população se con­centra nas áreas urbanas, a garantia de oferta de água se torna mais complexa. A população tende a degradar as águas mais próximas e o esgoto compromete mananciais. No semiárido, há o problema da escassez. Além disso, na imensa maioria dos municípios brasileiros, com menos de 50 mil habitantes, os sistemas de abastecimento são precários — afirma Sérgio Ayrimoraes, coordenador do Atlas Brasil de Abastecimento Urbano de Água, elaborado pela ANA.

Segurança alimentar

A água que mata a sede humana é a mesma usada na agricultura e na indústria. O campo é, de longe, o maior usuário desse recurso, e responde por 70% do consumo mundial. Se­gundo dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), para produzir alimentos para uma única pessoa são necessários um total de 2,5 mil litros de água.

Num documento lançado em julho passa­do na Itália, a FAO alertou para a crescente es­cassez decorrente das mudanças climáticas, colocando em risco a segurança alimentar. Lembrou que as chuvas aumentarão nos tró­picos e diminuirão ainda mais nos semiári- dos ao redor do mundo, que tendem a ficar mais secos e quentes. Com menos umidade, a produtividade agrícola também diminui. Aos governos, a FAO recomendou a criação de sistemas para gerenciar fontes, transferências e o uso da água, além de mecanismos de preservação das florestas.

— A questão é de gerenciamento da água. Nesta seca, o abastecimento municípios atendidos pela Barragem de Mirorós, na Ba­hia, ficou à beira do colapso porque a água para irrigação de culturas só foi suspensa quando a seca piorou muito. Em Serra Talha­ da, Pernambuco, a 100 quilômetros do Rio São Francisco, a água estava quase chegando por adutora, mas a obra parou depois que co­meçou a transposição. Agora, nem uma coisa, nem outra — diz Roberto Malvezzi, da Co­missão Pastoral da Terra do São Francisco.

O uso da água de Mirorós exemplifica a dis­córdia sobre o melhor aproveitamento do re­curso. Para Ayrimoraes, da ANA, a barragem é exemplo de uma gestão bem sucedida da oferta compartilhada entre consumo huma­no e irrigação.

Atualmente, 40% da população mundial vi­vem em países em situação de estresse hídri­co. Cinco das dez bacias hidrográficas mais densamente povoadas do planeta, como as dos rios Yang-Tsé, na China, e Ganges, na Índia, já são exploradas acima dos níveis consi­derados sustentáveis. A África, que tem a maior taxa de prevalência da fome, é também o segundo continente habitado mais seco do mundo, atrás da Oceania. Nos últimos 30 anos, 57 milhões de pessoas foram afetadas pela seca na Etiópia. Na Índia, mais de 70% das chuvas ocorrem em apenas três meses do ano, o que faz com que haja escassez de água durante boa parte do ano na agricultura não irrigada. Em Tamil Nadu, um dos estados da Índia, a extração excessiva baixou o nível de água dos poços entre 25 e 30 metros em ape­nas uma década.

A perfuração de poços profundos para irri­gação agravou a seca também em alguns pontos do semiárido brasileiro. Foi o caso de Mamonas, no Norte de Minas. No ano passa­do, o município teve de ser abastecido com água tirada do Parque Estadual Caminhos dos Gerais, depois que a barragem mais próxima secou.

— Em algumas regiões, as águas profundas foram comprometidas em quantidade e qua­lidade no passado. Poços se tornaram salo­bros, a água deixou de ser potável. A chuva também mudou. Agora vem mais intensa, em período mais curto, e o solo não consegue ab­sorver. A água lava a camada superficial da terra. O ciclo natural da água foi alterado, por­que quase todo rio tem barragem. Uma coisa leva a outra. Fazemos tudo o que está dentro da capacidade, mas estamos sendo traídos pela intensidade da reação da natureza — re­sume o sociólogo Marcos Affonso Ortiz Go­mes, diretor do Instituto Estadual de Flores­tas de Minas Gerais.

Outra demanda latente é a da produção de energia, que deve aumentar o consumo de água em 11,2% até 2050. A Agência Internaci­onal de Energia (AIE) estima que pelo menos 5% do transporte mundial será movido por biocombustíveis em 2030. Em média, cada li­tro de etanol a partir da cana-de-açúcar utili­za 18,4 litros de água e 1,52 m2 de terra, o que significa que a demanda pode ser devastado­ra em áreas onde a água é escassa, como a África. Para Ayrimoraes, da ANA, a tendência é aumentar o potencial de conflitos de inte­resses, seja entre regiões ou consumidores. A saída é economizar e melhorar a gestão.

O estresse hídrico, no entanto, é maior nas regiões que concentram maior população, não necessariamente nas mais secas. Daí a preocupação. Hoje, as áreas urbanas conso­mem 60% da água doce do mundo e as proje­ções da ONU indicam que, até 2050, 70% da população mundial estarão concentradas em grandes cidades.

No Brasil, a concentração urbana tem sido sinônimo de degradação ambiental. Boa par­te do problema é justamente a falta de trata­mento do esgoto.

Dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS 2010) mostram que apenas 53,5% da população urbana brasileira têm acesso à coleta e 37,9% ao tratamento de esgotos. O Instituto Trata Brasil chama a atenção para a “enorme ineficiência” dos sis­temas de abastecimento de água no Brasil. A cada cem litros produzidos, 36 são perdidos, seja do ponto de vista físico, com desvios da água tratada, seja do ponto de vista de faturamento. Segundo o Instituto, em alguns muni­cípios, como Porto Velho, Cuiabá, Rio Branco e Duque de Caxias, as perdas superam 60%. Na maior empresa do país, a Sabesp, foram de 25,6% em 2011. A meta, até 2019, é reduzir a 13%. No melhor sistema do mundo, o do Ja­pão, a perda é de somente 5%.

O Plano Nacional de Saneamento (Plan- sab), submetido a consulta pública pelo Mi­nistério das Cidades, revelou que, em 2007, 30,3 milhões de brasileiros receberam em su­as residências água que não atendia aos pa­drões de potabilidade estabelecidos pelo Mi­nistério da Saúde. A análise dos especialistas reprovou pelo menos um dos itens mínimos quando se analisa a qualidade: turbidez, clo­ro, coliformes totais e termotolerantes e bac­térias heterotróficas.



Fonte: EcoDebate.



domingo, 20 de janeiro de 2013

A repetição de uma tragédia previsível


Por Marília Gonçalves


 
No verão de 2010, o Rio de Janeiro sofreu uma das maiores tragédias decorrentes de chuvas fortes da sua história. Especialmente na região metropolitana e nas cidades de Angra dos Reis e Niterói, onde 47 vidas se perderam no conhecido caso do Morro do Bumba, houve destruição em grandes proporções. Algo como um ano depois foi a vez da região serrana do estado sofrer, também devido a fortes chuvas, uma catástrofe que transformou cidades inteiras em verdadeiros cenários cinematográficos de guerra. Mais de 500 pessoas morreram e algumas regiões ainda não se recuperaram, dois anos depois. Segundo estudo publicado na última semana, hoje o estado do Rio de Janeiro tem áreas de risco em mais de 70% de seus municípios. Mas quem é responsável por tentar evitar a tragédia? O que dificulta esse processo?

A divisão dos papéis

O Brasil está 60 anos atrasado em matéria de gerenciamento de risco, segundo Marcelo Motta, professor e pesquisador do grupo Geotecnia Ambiental, da PUC-Rio. Isto se deve, em geral, à dificuldade de implementação dos planos de risco desenvolvidos por universidades, o que seria de responsabilidade das prefeituras. “O problema é a priorização dos gastos para outras coisas. Às vezes o prefeito acha mais importante fazer uma cidade da música do que investir em política de habitação”, afirma Marcelo.

O professor Emilio Velloso Barroso, do Departamento de Geologia da UFRJ, concorda que o problema da gestão política está, principalmente, no nível municipal, mas nem as prefeituras nem os Estados têm quadros técnicos suficientes para realizar um diagnóstico qualificado das áreas de risco e traçar planos de emergência satisfatórios. No caso do Estado do Rio de Janeiro, a solução procurada depois da situação se mostrar insuportável, com o acontecimento dos seguidos acidentes, foi estabelecer parcerias com universidades e convênios com empresas que poderiam realizar este trabalho técnico – é o que vem fazendo o grupo de pesquisa em Geotecnia Ambiental, um trabalho de levantamento de dados primários, pesquisa aplicada a necessidades do estado, em parceria estabelecida com o serviço geológico e a defesa civil do Rio. Mas a situação não se repete em todas as cidades. Mesmo depois dos graves acidentes, Niterói não possui nenhum geólogo nos seus quadros, e nenhum concurso foi realizado.

Desde 2008, o Rio vem investindo mais na área de gerenciamento de risco e prevenção de desastres. Na opinião de Emílio, no entanto, ainda de forma insatisfatória. As pesquisas desenvolvidas nas universidades não foram apropriadas pelo poder público para construir políticas abrangentes. O investimento foi aplicado a obras pontuais e construção de sistemas de alerta, que tão somente medem a quantidade de chuva, alertando para possível emergência e necessidade de evacuação da área, mas não contribuem para a eliminação do risco. “Como há a percepção de que precipitações cada vez menores podem levar a acidentes sérios, há um enorme risco dos sistemas de alerta falharem também”.

A questão social por trás das catástrofes naturais

Quando o assunto é gerenciamento de risco, é importante ter clareza de que não se trata de um fenômeno exclusivamente natural. Em outras palavras, conceitualmente a natureza não causa risco por si mesma. O risco é um fenômeno social, existe quando há presença e intervenção humana. “É natural que o barranco despenque, não é natural que se construa uma pousada embaixo dele”, comentou Marcelo. Por isso, para o pesquisador, o planejamento urbano é fundamental para avançar no assunto. “A gente planeja a cidade quando ela já está ocupada. Faz sentido permitir que pessoas construam casas em cima de um lixão e ainda cobrar IPTU delas?”, comenta sobre o caso do Morro do Bumba, onde funcionava um lixão antes de se tornar uma favela.

Os especialistas concordam em pelo menos um ponto: é possível construir em encostas, em alguns casos. Essas obras necessitam de maior cuidado e tecnologia mais avançada, o que pode aumentar o custo, mas não a torna impossível. Marcelo alerta para o fato de que, em cidades como o Rio de Janeiro, em que os morros são majoritariamente ocupados por pessoas de baixa renda, a situação de risco é usada muitas vezes para legitimar um processo de remoção de uma área nobre, onde o terreno tem alto valor especulativo. Ele lembra que os custos de obras de prevenção, como a contenção das encostas, são menores do que os de reversão dos danos.

Mas, afinal, como prevenir as catástrofes? Para o professor Tacio Campos, coordenador do grupo Geotecnia Ambiental, o mais importante é investir em informação, em primeiro lugar. Entender o porquê das mudanças geológicas seria ponto fundamental para dimensionar os possíveis riscos e gerenciar episódios de emergência. Emílio concorda, e acrescenta que o planejamento do uso do solo, responsabilidade das prefeituras, precisa ser melhor realizado.

Além disso, não há como tratar das catástrofes naturais sem considerar as questões sociais que estão por trás dela. Assim, não há como apontar soluções que estejam descoladas de ações sociais. “Precisamos de um grande pacto nacional capaz de formular políticas e ações que levem ao enfrentamento integrado da questão em diferentes frentes: conhecimento geológico em escala adequada para identificação das áreas de risco; capacitação instrumental e pessoal do poder público e, principalmente, investimento habitacional, em transporte público e na capacitação profissional da população de baixa renda para geração de emprego e renda”, sugere Emílio.


Fonte: Canal Ibase





segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Ibama lança Lista Brasileira dos Resíduos Sólidos para ajudar no controle, circulação e manejo.

Identificar, classificar e descrever um resíduo sólido e sua fonte geradora agora ficou mais fácil no Brasil. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) publicou a Lista Brasileira de Resíduos Sólidos na Instrução Normativa nº 13, com base na necessidade de padronizar a linguagem utilizada para a prestação de informações sobre a geração destes produtos, facilitando a gestão e o gerenciamento nos diversos níveis, desde a geração, até a destinação final ambientalmente adequada.

Entre as fontes geradoras de resíduos perigosos incluem-se a extração mineral, os processos químicos orgânicos e inorgânicos, os de serviços de saúde e até aqueles gerados em casa. Por isso mesmo, o Ibama levou em conta o direito da sociedade à informação e ao controle social, um dos princípios da Política Nacional de Resíduos Sólidos.

A partir da Lista Brasileira de Resíduos Sólidos, será possível elaborar dados estatísticos comparativos sobre a geração e destinação dos resíduos de diferentes empreendimentos e atividades. O analista ambiental do Ibama, Gilberto Werneck de Capistrano Filho, afirma também que a iniciativa permitirá agregar os dados dos planos de gerenciamento das empresas aos planos de gestão dos estados e municípios, e até entre estes, que possuem realidades de geração e destinação de resíduos bastante distintas.

Para o secretário de recursos hídricos e ambiente urbano do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Pedro Wilson Guimarães, o Brasil, agora, equipara-se a outros países na fiscalização e controle de resíduos sólidos, em especial os perigosos, que exigem segurança diferenciada no uso, guarda e transporte”.

Informações reunidas

A norma confere ao Ibama, a partir de agora, condições de controlar, com maior eficácia, as atividades de pessoas jurídicas já registradas no Cadastro Técnico Federal e que geram resíduos sólidos, inclusive os perigosos ou potencialmente perigosos ao meio ambiente e à saúde pública.

As empresas que desenvolvem atividades potencialmente poluidoras e que já são obrigadas a prestar informações sobre a geração, coleta, transporte, armazenamento e destino dado aos resíduos terão uma nova forma de identificá-los a partir da lista. Cada um dos 20 capítulos do documento apresenta uma relação dos códigos utilizados para especificar o tipo do produto.


Fonte: IBahia


 


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Quase metade das crianças vive em domicílios onde falta pelo menos um serviço de saneamento



Por Flávia Villela, repórter da Agência Brasil



Em 2011, 48,5% das pessoas até 14 anos de idade (21,9 milhões) residiam em domicílios em que pelo menos um serviço de saneamento (água, esgoto ou lixo) era inadequado. O dado faz parte da Síntese de Indicadores Sociais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados no dia 28de novembro.

Cerca de 4,8 milhões de crianças (10,7%) viviam em casas em que mais de um desses serviços eram inadequados, sendo que 17,2% delas eram da Região Nordeste e 3,7%, da Sudeste. Segundo o IBGE, a maior parte da população até 14 anos de idade faz parte de famílias com menor poder aquisitivo: 60,8% vivem com rendas até meio salário mínimo.

A pesquisa chama a atenção ainda para o déficit de creches no país, sobretudo, para as crianças da camada mais pobre e as mães que precisam trabalhar e/ou estudar, mas não têm com quem deixar os filhos. Entre as mulheres com filhos até 3 anos de idade cujos filhos frequentam creche, 71,7% estavam ocupadas em 2011. No mesmo período, apenas 21% das crianças até 3 anos tinham acesso à creche.

De acordo com o conselheiro do Movimento Todos pela Educação, Mozart Neves Ramos, a primeira etapa da educação básica é determinante para o desenvolvimento dessas crianças. Ele informou que o custo per capita da fase pré-escolar é o mais alto entre todas as etapas da educação, mas que o retorno compensa.

“A meta número 1 do Plano Nacional de Educação é ampliar o acesso às creches, mas o Brasil evoluiu muito pouco em relação à demanda. A meta estabelecida era chegar a 50% em 2010 e o desafio é tão grande que a meta foi mantida para 2020.”

O estudo ressalta ainda que a fecundidade costuma atrasar e, em muitos casos, interromper o processo de escolarização da mulher e que deve haver políticas públicas para dar suporte às mães que não desejam parar de frequentar a escola ou que pretendem estudar ou trabalhar.

Entre as crianças brasileiras de 4 e 5 anos de idade, a taxa de escolarização é melhor do que entre as crianças mais novas. Em 2011, quase 77,4% das crianças nessa faixa etária frequentavam a escola, enquanto em 2001 esse percentual era 55,4%. Entretanto, a média brasileira ainda está baixo da dos países-membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que é 90%.

Fonte: Agência Brasil


Cerca de 85% dos brasileiros separariam o lixo caso serviço de coleta seletiva estivesse disponível, aponta Ibope.

Por Camila Maciel, repórter da Agência Brasil



A maioria (85%) dos brasileiros que ainda não conta com coleta seletiva estaria disposta a separar o lixo em suas casas, caso o serviço fosse oferecido nos municípios, aponta pesquisa divulgada no dia 28 de novemvro, pelo Programa Água Brasil. Apenas 13% dos entrevistados declararam que não fariam a separação dos resíduos e 2% não sabem ou não responderam. O estudo, encomendado ao Ibope, entrevistou 2.002 pessoas em todas capitais e mais 73 municípios, em novembro do ano passado.

Apesar da disposição em contribuir para a destinação adequada dos resíduos sólidos, o percentual dos que não têm meios para o descarte sustentável chega a 64% dos entrevistados. A quantidade de pessoas que contam com coleta seletiva ou que têm algum local para deixar o material separado representa 35% da amostra.

Em relação aos produtos que costumam ser separados nessas casas, as latas de alumínios ficam em primeiro lugar, com 75%, seguidas pelos plásticos (68%), papéis e papelões (62%) e vidros (55%). Os eletrônicos, por outro lado, são separados por apenas 10% dos entrevistados. Cerca de 9% dos entrevistados não separam nenhum material mesmo que o serviço de coleta seletiva esteja implantado na sua região.

Dos que contam com o serviço de coleta seletiva, metade (50%) dos casos tem a prefeitura como responsável pelo trabalho. Catadores de rua (26%), cooperativas (12%) e local de entrega (9%) aparecem em seguida dentre os meios de coleta disponíveis.

O estudo aponta também que a proposta de uma tarifa relaciona ao lixo divide opiniões. A ideia de que quem produz mais resíduos deve pagar uma quantia maior é aprovada completamente por 13% dos entrevistados, 23% concordam parcialmente. Os que discordam completamente a respeito do pagamento da taxa somam 36%. Há ainda os que não concordam, nem discordam (16%) e os que discordam em parte, com 10%.

Na hora de consumir, práticas sustentáveis ainda são deixadas de lado. Preço, condições de pagamento, durabilidade do produto e marca lideram as preocupações do consumidor brasileiro. O valor do produto, por exemplo, é considerado um aspecto fundamental por 70% dos entrevistados. Características do produto ligadas à sustentabilidade, no entanto, como os meios utilizados na produção, o tempo que o produto leva para desaparecer na natureza e o fato de a embalagem ser reciclável, ficam em segundo plano.

Os entrevistados responderam ainda quais produtos devem ser menos usados em suas casas nos próximos três anos. O campeão foi a sacola plástica. O produto é comprado com frequência em 80% das residências, mas 34% dos entrevistados esperam reduzir o consumo. Em seguida aparecem os copos descartáveis (31%), bandejas de isopor (22%) e garrafas PET (21%). No fim da lista, entre os que devem permanecer com alto percentual de consumo, estão os produtos de limpeza perfumados. Apenas 9% estimam que irão reduzir o uso desses materiais.

O Programa Água Brasil é uma iniciativa do Banco do Brasil, da Fundação Banco do Brasil, da Agência Nacional de Águas (ANA) e da organização não governamental WWF-Brasil, com intuito de fomentar práticas sustentáveis no campo e na cidade.

Fonte: Agência Brasil



domingo, 25 de novembro de 2012

Conservação e reuso de água, práticas que crescem na indústria

Por * Ivanildo Hespanhol


Dono de 12% das reservas de água doce do mundo, a questão da água não era um problema no Brasil até pouco tempo atrás, com exceção das regiões semiáridas. Não havia a preocupação em mapear o consumo de cada setor da economia. Também não existia o entendimento de que a água é um recurso finito, um bem econômico que precisa ser preservado para garantir a sustentabilidade dos recursos hídricos.

Nos últimos anos, os problemas de escassez devido à demanda crescente, associados ao custo da cobrança pelo uso das águas e à poluição dos mananciais, levaram ao desenvolvimento de métodos opcionais de gestão, como a adoção de sistemas conservacionistas e de reuso de água, práticas que vêm se disseminando na indústria. O processo permite efetuar a gestão da demanda, controlando perdas e desperdícios e reaproveitar efluentes domésticos e industriais, convenientemente tratados.

A fim de diminuir o impacto da cobrança nos custos de produção, que pode resultar em perda de competitividade, a indústria paulista tem feito grandes investimentos para reduzir a captação de água e a geração de efluentes.

A indústria química, por exemplo, conseguiu diminuir em 24% o consumo e em 55% a emissão de efluentes entre 2001 e 2007. Na Bacia do Paraíba do Sul, o reuso é praticado por cerca de 50% das grandes indústrias. Dos 32 milhões de metros cúbicos captados, 25%, ou pouco mais de 8 milhões de metros cúbicos, são reutilizados, principalmente pelo setor metalúrgico.

Para incentivar o setor industrial e outros usuários sujeitos à outorga a economizar água e reduzir a carga poluidora, a Agência Nacional de Águas (ANA) instituiu, em 1997, a cobrança pelo uso dos recursos hídricos, incluindo a captação de água e o lançamento de efluentes. Mas só nos últimos anos a lei foi implantada nos estados. Em São Paulo, onde a água de reuso equivale a aproximadamente 20% do consumo para fins não potáveis, a cobrança foi regulamentada em 2006. Ao dar uma dimensão econômica a esse recurso natural, que tende a ficar mais caro com a demanda crescente, o órgão regulador estimulou o uso racional e sustentável, inibindo o desperdício.

Além do fator econômico, as indústrias estão cada vez mais preocupadas em desenvolver novos conceitos ambientais tais como “eco-vantagem” e “eco-imagem”, cientes de que possam gerar retorno superior aos proporcionados por ações de propaganda e marketing. Diversas entidades de classe, como Fiesp, Fierj e Sinduscon-SP produziram manuais com orientação sobre conservação e reuso da água com o apoio do Centro Internacional de Referência em Reuso em Água – CIRRA/IRCWR, ligado ao Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. A Associação Brasileira da Indústria de Álcalis, Cloro e Derivados (Abiclor) estimulou a discussão sobre o tema durante a Acquasur 2000, evento que apresentou temas sobre viabilidade socioeconômica e ambiental do reuso da água. A gestão ambiental na indústria se constituía em tema que atraia pouco interesse da maioria dos empresários nacionais, o que mudou substancialmente nos últimos anos.

O aproveitamento de águas pluviais e o reuso reduzem a demanda exercida sobre os mananciais devido à substituição da água potável fornecida por concessionárias por água coletada nas próprias empresas e pelo tratamento e reuso de seus próprios efluentes. Muitas vezes, a qualidade das águas do sistema público é superior à qualidade necessária, com possibilidade de ser substituída por uma de qualidade inferior a um custo menor.

A água poluída pode ser recuperada e reusada para diversos fins desde que tratada. O tipo de tratamento recomendado está diretamente vinculado ao uso e aos critérios de segurança adotados. Geralmente, a água de reuso passa por um tratamento biológico, físico-químico e desinfecção com cloro ou outro desinfetante tais como dióxido de cloro, ozona ou radiação ultravioleta. Nos reservatórios, é conveniente manter a presença de cloro residual na água. Além disso, em se tratando de água de chuva, é necessário fazer a filtração e desinfecção com cloro ou outro desinfetante tais como dióxido de cloro, ozona ou radiação ultravioleta. Usos que demandam água com qualidade elevada exigem sistemas de tratamento e de controle avançados. Entretanto, mesmo que sejam efetuados grandes investimentos em sistemas de tratamento e reuso, os períodos de retorno do capital são geralmente reduzidos, mantendo-se, normalmente, em menos de três anos.

Embora ainda incipiente no país, o reuso urbano é indicado para a rega de jardins, campos de futebol e golfe, lavagem de ruas, desentupimento de galerias de esgoto, compactação de terrenos, descarga sanitária em banheiros, água de “make up” em torres de resfriamento de sistemas de ar condicionado, reserva de incêndio e sistemas decorativos. Na construção civil, a água de reuso pode ser utilizada para preparação e cura de concreto e para atingir a umidade ótima em trabalhos de compactação de solos. Na agricultura, um dos setores que mais consomem água, o reuso também apresenta um grande potencial de crescimento, mas no Brasil, está, ainda, muito pouco desenvolvido. Para fins agrícolas, o uso do esgoto tratado para irrigação gera economia para os agricultores, pois carrega matéria orgânica, nutrientes e macro nutrientes, dispensando, na maioria dos casos, a necessidade da utilização de fertilizantes sintéticos. Esgotos tratados têm sido, atualmente, utilizados para fins não potáveis, mas a prática mundial se encaminha, em futuro próximo, para fins potáveis, após o tratamento avançado de esgotos. Mas, qualquer que seja a forma de reuso empregada, é fundamental atentar para a preservação da saúde dos usuários, a preservação do meio ambiente, o atendimento consistente às exigências de qualidade conforme o uso pretendido e à proteção dos materiais e equipamentos utilizados.

Apesar dos avanços mais recentes, a prática de reaproveitamento da água no país ainda carece de uma legislação específica e realística, que oriente e defina os tipos de reuso, padrões e controle de qualidade, a fim de garantir a qualidade necessária para cada uso específico. É preciso, portanto, vontade política e um arcabouço legal para promover e estimular o reuso no país como instrumento de gestão dos recursos hídricos. É importante ainda que o governo ofereça algum tipo de subsídio às empresas que adotem a prática de reuso de água.



* Ivanildo Hespanhol é professor titular da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, diretor do Centro Internacional de Referência em Reuso de Água – Cirra/IRCWD, Universidade de São Paulo.

Fonte: Envolverde



Especialistas dizem que Nordeste tem água, mas falta capilaridade na distribuição

Por Carolina Gonçalves


A fome, sede e as perdas agrícolas enfrentadas, anualmente, por quase 20 milhões de brasileiros que vivem no Semiárido nordestino, poderiam ser evitadas se existisse um programa de abastecimento de água para a região nos mesmos moldes do Programa Luz para Todos.

O defensor da proposta, João Abner Guimarães Júnior, especialista em recursos hídricos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), garante que o novo sistema solucionaria, inclusive, os impactos agravados em anos com estiagem mais prolongada como o atual.

As cidades nordestinas estão enfrentando desde o último mês de janeiro uma das maiores secas dos últimos 30 anos. As previsões meteorológicas indicam que as chuvas só devem cair no Semiárido a partir do ano que vem.

“Tem água para consumo humano e animal, tem água sobrando. Tem estoques de água suficiente para atender plenamente, mesmo nesta época como agora. São 10 bilhões de metros cúbicos armazenados na região acima do Rio São Francisco, em grandes reservatórios”, detalhou Abner. Segundo ele, um sistema adutor com capilaridade seria suficiente para atender a toda a demanda local, comprometendo menos de 20% da disponibilidade hídrica dos reservatórios.

Ao apresentar dados de armazenagem de água no Nordeste, durante audiência pública da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados sobre o problema da seca na região, o pesquisador destacou que o Semiárido brasileiro é um dos sistemas ambientais mais chuvosos do mundo, mas o acesso à água não está democratizado.

“Os cerca de 60 mil açudes que têm hoje no Nordeste ficam lá, sendo reservados para consumo humano. Enquanto isso, 95% da água se perde em evaporação. Na hora que tiver um sistema integrado que traga água [das grandes barragens] para o abastecimento humano, você libera os pequenos açudes para a produção de feno”, disse, ao criticar a falência do sistema de abastecimento da região.

“A solução para o período de vacas magras tem que passar pelo aproveitamento do período de vacas gordas. Seria o [programa] água para todos, que representaria uma revolução também para a agricultura. Isso custaria cerca de R$ 20 por ano, por habitante. É um custo menor do que o custo do carro-pipa. É um terço do valor da transposição do Rio São Francisco”, afirmou.

A situação do Semiárido nordestino, segundo os especialistas, reflete falhas do cenário nacional. O Brasil concentra a maior parte da água escoada no mundo, mas enfrenta problemas de má distribuição: 72% estão na Região Amazônica; 19% no Centro-Oeste; 6% no Sul e Sudeste; e apenas 3% no Nordeste.

João Suassuna, pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, lembrou que em períodos de estiagem mais intensas, metade da população local sofre com a seca e fome. “Oitenta por cento das secas do Nordeste ocorrem no miolão da região. E a seca não é por falta de água, mas pela má distribuição dessa água”, criticou.

Segundo ele, a solução para o problema da seca deve ser baseada em medidas de convívio com as condições climáticas características da região. Para Suassuna não serão grandes obras que apontarão o fim do sofrimento da população afetada. As barragens instaladas na região Nordeste têm potencial de armazenagem de 37 bilhões de metros cúbicos.

“Mas não tem uma política para captar essa água e levar para quem precisa”, criticou. “Há 18 anos sou contra a transposição [da Bacia do Rio São Francisco] porque vai chegar onde já é abundante. Vai abastecer represas nas quais as populações no entorno estão passando sede. Esta população vai continuar sofrendo com a seca e sendo abastecida por caminhões-pipa, mesmo depois da transposição”.

No Ceará, por exemplo, as 8 mil represas poderiam armazenar 18 bilhões de metros cúbicos, segundo Suassuna. Pelas contas do pesquisador, apenas o Açude Castanhão, a maior barragem do Nordeste, seria capaz de atender a todas as cidades cearenses. A capacidade de aproveitamento do recurso também está acima das expectativas nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.

Fonte: EcoDebate