terça-feira, 6 de outubro de 2009

Amargo veneno

Por Marina Silva*

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) baniu recentemente o acefato e o endossulfam, princípios ativos na fabricação de agrotóxicos, proibidos em vários países por causarem danos ao meio ambiente e à saúde. Por trás dessa notícia há um cenário preocupante, pois o Brasil é hoje o maior consumidor mundial de agrotóxicos.

O uso descontrolado desses produtos está diretamente relacionado a inúmeras doenças fatais, agudas e crônicas, como câncer, disfunções hormonais, má formação genética, problemas neurológicos e alergias. Segundo dados de 2007 do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), foram registrados no país 9.670 casos de intoxicação aguda por agrotóxicos em uso agrícola e doméstico, com 213 mortes.

Desde 2001, a Anvisa monitora resíduos de agrotóxicos em alimentos in natura. Em 2008 foram analisadas 17 culturas, e em todas foram encontradas amostras com resíduos acima do permitido pela lei ou com a presença de substâncias não autorizadas.

No meio ambiente, a prática tem mostrado que as pragas ficam mais resistentes, exigindo novas soluções e aumentando o custo de produção. Para o trabalhador rural, além dos gastos crescentes e contínuos, sua saúde é afetada, a terra fica empobrecida, os animais são também atingidos e a biodiversidade é destruída, na contramão do interesse coletivo. Não há lucratividade que reponha essas perdas.

Muitos pesquisadores e empreendedores vêm atestando a viabilidade de um modelo de produção agrícola mais sustentável em termos ambientais e econômicos. A Embrapa, por exemplo, iniciou o projeto "Transição Agroecológica: construção participativa do conhecimento para a sustentabilidade", reunindo 25 unidades de pesquisa e 29 instituições em todo o Brasil.

É preciso investir em tecnologias que reduzam o uso de substâncias tóxicas, para o bem da própria agricultura. A tendência global é a de aumento das exigências ambientais e das restrições relacionadas a produtos químicos.
A Anvisa está realizando, em seu site, consultas públicas como parte do processo de revisão dos dados toxicológicos de vários princípios ativos de agrotóxicos. Mesmo realizando um trabalho de inegável interesse público, ela vem sofrendo forte oposição de alguns setores.

Por isso, o apoio da sociedade é fundamental, sobretudo o dos produtores rurais. Afinal, eles serão os primeiros beneficiados com a implementação de novos protocolos e tecnologias limpas, ferramentas indispensáveis para que a agricultura brasileira dê o seu grande salto de qualidade.

* Marina Silva é pedagoga, senadora (PV-AC) e ex-ministra do meio ambiente. contatomarinasilva@uol.com.br

Publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo em 05-10-09, segunda.


(Envolverde/Assessoria)

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