quarta-feira, 5 de agosto de 2009

O lixo nosso de cada dia se transforma em negócio lucrativo

Por Sônia Araripe, da revista Plurale

Um R é igual a reduzir. Outro R pode significar reutilizar. E o terceiro, reciclar. Este conjunto de ações nunca foi tão importante. Em um cenário de centros urbanos cada vez mais congestionados, com a geração de montanhas de lixo, a solução para os resíduos tem que ser tratada como prioridade zero. O esforço conjunto, em modelo que envolve governos, empresas e a sociedade civil prevê inclusão social através de cooperativas de catadores, e tem lançado o Brasil como case de reciclagem no cenário global. O país é hoje campeão na reciclagem de latas de alumínio, por exemplo, com taxa de 96%. São aproximadamente 9,4 bilhões de latas no ano ou 26 milhões de latas recicladas diariamente. Também cresce a reciclagem de garrafas PET, latas de aço, vidro, papelão e outros materiais.

Várias empresas estão envolvidas nesta verdadeira “cruzada” em defesa não apenas de seus interesses, mas também do planeta, em última instância. Seja em trabalho individualizado ou através de associações e institutos, o setor privado tem procurado agir também junto ao poder público e em ações educativas. ONGs também têm participado ativamente deste esforço coletivo e voluntários na causa procuram fazer sua parte. Que nos digam professoras de diferentes partes do país, empenhadas em ensinar aos alunos a importância de descartar os produtos em latas de lixo das cores certas e também a evitar consumos exagerados.

Logística reversa

Há, porém, muito ainda a ser feito. Estima-se que apenas 3% de todo o lixo do país seja reciclado. Nos Estados Unidos ou na Europa, este percentual varia de cidade para cidade, mas pode chegar na faixa de 70% ou até mais. As vantagens do processo são imensas: cada 50 quilos de papel usado transformado em papel novo evita que uma árvore seja cortada e com um quilo de vidro quebrado faz-se exatamente um quilo de vidro novo. O setor de reciclagem como um todo movimenta hoje no país cerca de R$ 8 bilhões por ano, segundo dados do Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre). Em 1994, 81 municípios faziam a coleta seletiva em escala significativa. Em 2004 este número avançou para 237, em 2006 para 327 e em 2008 alcançou 405 (cerca de 7% do total de municípios no país). “Precisamos ter políticas públicas bem definidas para que passemos rapidamente para um outro patamar”, recomenda André Vilhena, diretor-executivo do Cempre. Assim, esforços devem ser cada vez mais pensados no conceito de rede, envolvendo toda a cadeia produtiva, sem jamais esquecer o aspecto da inclusão social. E o lixo pode se transformar também em um grande negócio.

“Os avanços dos últimos anos são inquestionáveis. Mas será preciso avançar bem mais diante dos desafios que surgem”, adverte o consultor Carlos Rossin, sócio da Pricewaterhousecoopers. É fácil entender o que ele fala: a lei de resíduos sólidos está sendo discutida no Congresso e o que os especialistas chamam de Logística Reversa (conseguir fechar o ciclo do produto, retornando à origem) será essencial. “No mercado atual não há mais espaço para aquela empresa que pensa apenas em vender, sem se comprometer ou pensar nos efeitos para a sociedade durante todo o ciclo do produto. Até a hora do descarte”, alerta Rossin.

Lei de Resíduos

Tramita no Congresso nova proposta de Política Nacional de Resíduos Sólidos, cujo relator é o deputado Arnaldo Jardim (PPS-SP). Seu relatório final está para ser votado. O relator, já apresentou uma minuta que reformula o texto analisado há três anos. A nova versão da proposta, se aprovada pelo grupo, será levada ao Plenário como alternativa ao relatório da comissão especial. Entre as principais medidas previstas no novo texto, está a proibição da importação de pneus usados e de outros resíduos. Além disso, as empresas que fabricarem ou colocarem no mercado agrotóxicos, pilhas, baterias, pneus, óleos e lubrificantes ficarão responsáveis pela destinação adequada dos resíduos desses produtos.

Segundo Arnaldo Jardim, o Brasil está atrasado em matéria de gestão de resíduos sólidos, pelo fato de não contar ainda com uma política nacional que oriente a atuação dos órgãos governamentais nas diferentes esferas da federação. “Muitas vezes, o Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) legisla nessa área, devido à ausência de uma lei geral”, afirmou.

Em entrevista à Plurale em revista, o ministro das Cidades, Marcio Fortes, disse que o ministério contribuiu com a elaboração do anteprojeto. “Criamos uma grande expectativa em torno dessa política, que tem interface com a Lei do Saneamento. Teremos, a partir dele, um instrumento legal que dará sustentabilidade às obras hoje executadas em parceria com as prefeituras, que contribuirá, também, para a organização da prestação do serviço e para a inclusão social dos catadores.”

Algumas prefeituras estão mais avançadas no trabalho, outros menos. Em um ponto é certo. O setor privado e a sociedade podem fazer parte do trabalho, mas apenas políticas públicas conseguirão realmente transformar este quadro para um novo patamar. “A nova política nos fará dar um salto em termos de gestão dos resíduos”, acredita André Vilhena, do Cempre.

No Rio, a vereadora Aspásia Camargo (PV) fez a lei da Gestão Integrada dos Resíduos Sólidos. A Gestão Integrada de Resíduos Sólidos pode ser definida como a maneira de conceber, implementar e administrar sistemas de Limpeza Pública considerando uma ampla participação de toda a administração pública e dos setores da sociedade, com a perspectiva do desenvolvimento sustentável envolvendo as dimensões ambientais, sociais, culturais, econômicas, políticas e institucionais.

Biogás

Em alguns casos, o setor privado de olho no lucro do lixo tem avançado. Para quem não sabe, não só a reciclagem, mas também a queima de lixo e até mesmo aterro sanitário - com perspectiva de geração de créditos de carbono - podem, nas mãos de gestores privados, se transformar em negócio lucrativo. No Rio, recentemente, a Novo Gramacho Energia Ambiental inaugurou nesta sexta-feira, dia 5, a Usina de Biogás do Aterro Metropolitano de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, que produzirá por meio da decomposição de matéria orgânica do lixo cerca de 160 milhões de metros cúbicos de biogás por ano. A energia gerada com a produção de biogás será equivalente à de gás natural consumida pelas residências na cidade do Rio, evitando a liberação de 75 milhões de metros cúbicos de metano por ano na atmosfera. O projeto, o maior do Brasil em redução das emissões de gases de efeito estufa, demandará investimentos de R$ 91 milhões até a sua fase final - dos quais R$ 41 milhões já foram aplicados. O restante será investido na purificação do gás e no seu transporte, além de obras de compensação ambiental. O projeto da Novo Gramacho é também o maior do mundo em crédito de carbono em aterro sanitário com aprovação da ONU, com estimativa de obter 10 milhões de créditos de carbono em 15 anos de atividade. O papel de cada consumidor - seja individualmente ou através de pressão junto às autoridades públicas - também é muito relevante. Como reforça Helio Mattar, do Akatu, só haverá uma mudança de comportamento de consumo se o consumidor se der conta de que pequenas atitudes, repetidas ao longo do tempo, fazem muita diferença. “Dessa forma, é possível mostrar ao consumidor que seu ato individual de consumo, ao longo de sua vida, tem um impacto importante sobre a sociedade e o meio ambiente.” É importante também, acrescenta Mattar, que cada consumidor se perceba como um multiplicador de seu modelo de consumo. “Todos juntos fazem muita diferença, mesmo em pouco tempo.” É nisso que precisamos acreditar. O planeta agradece.

Revista Meio Filtrante.

Um comentário:

Dri Viaro disse...

Oi, vim conhecer seu blog e desejar bom fds
bjss

aguardo sua visita :)